Ativismo menstrual

Por Helô Righetto

ATENÇÃO: o feminismo praticado na Conexão Feminista é trans-inclusivo. Não achamos que apenas mulheres menstruam ou que todo mundo que menstrua é mulher. Respeitamos quem considera a menstruação como parte integral a sua feminilidade, mas achamos que cada pessoa tem o direito de definir o que faz dela uma mulher, um homem, ou uma pessoa não binária. Vamos celebrar as nossas diferenças e percebê-las como algo bom.
Volta e meia, quando falo de ativismo menstrual nas redes sociais, tem alguém que me fala que nunca havia escutado essa expressão antes. Isso é também algo relativamente novo pra mim. Apesar do feminismo ter entrado na minha vida com toda força em 2012, só há apenas uns dois ou três anos que eu aprendi que menstruação é uma questão feminista. A primeira vez que abordamos isso na Conexão Feminista, eu e Renata, foi nesse bate papo aqui:



Mas desde então, eu li e me informei muito mais sobre o assunto, a ponto de ativismo menstrual se tornar uma das minhas pautas preferidas no feminismo.

Então queria deixar aqui esse post como uma breve introdução ao ativismo menstrual, para servir como referência sempre que alguém me perguntar.

No meu entedimento de menstruação como pauta feminista, existem esses três pilares:

Pobreza menstrual (tradução livre da expressão em inglês ‘period poverty’): para entender o que é isso, basta você pensar um pouco como você lida com o gerenciamento da sua menstruação. Você tem absorventes/coletor a seu dispor? Tem um banheiro, tanto na sua casa quanto no trabalho, ou na escola/faculdade, no qual você se sente segura para passar o tempo que precisa para trocar seu absorvente/coletor? Esse banheiro tem lixeira e água corrente? Tem papel higiênico? Você tem calcinha? Se você usa absorvente reutilizável, você tem onde lavá-lo e secá-lo? Se você respondeu sim a essas perguntas, e se voc6e nunca tinha se tocado do privilégio que é poder responder sim a essas perguntas, tente pensar como é menstruar para quem responde não a essas perguntas. Pobreza menstrual é isso: não ter acesso a produtos para administrar a menstruação ou acesso a um espaço para fazer esses procedimentos. E é preciso pensar na consequência disso: meninas e mulheres que deixam de ir na escola ou trabalho porque estão menstruadas são super prejudicadas, adicionando alguns metros no abismo da desigualdade entre homens e mulheres. Há ativistas que inclusive pedem que absorventes sejam distribuídos gratuitamente em locais públicos, como escolas, escritórios, restaurantes. Afinal, se ninguém sai por aí carregando seu próprio rolo de papel higiênico, e lidar com a menstruação é um direito tão básico quanto lidar com os demais fluídos eliminados pelo nosso corpo?

Tabu: falar de menstruação é tabu. Fato. Mulheres cis e outras pessoas que menstruam foram ensinadas a ter vergonha e esconder a menstruação. Ai se mancha a calça! Ai se mancha o lençol! Não falamos de menstruação abertamente, como se fosse um problema que nós temos que resolver sozinhas entra mês e sai mês. A sociedade coloca todo o peso de lidar com a menstruação na mulher, no indivíduo. Aí, o negócio vira ‘problema de mulher’ – ué, quando queremos falar de aborto o governo e a igreja nos enchem o saco, mas quando é menstruação ninguém quer saber? Falta ligar uns pontos aí, não? E isso sem contar o isolamento que mulheres de culturas diferentes das nossas sofrem quando estão menstruadas, graças a lendas e tradições mais ultrapassadas que criminalização do aborto. Ah, cabe aqui também a velha história do ‘tá de TPM?’ (quem nunca ouviu essa?), que usa o ciclo menstrual como uma forma de gaslighting e silenciamento. Se menstruação não fosse tabu, esse tipo de ‘piada’ jamais existiria.

Sustentabilidade: estamos acompanhando o sucesso do coletor menstrual e o lançamento de absorventes reutilizáveis, feitos de materiais naturais, como fibra de bambu, por exemplo. Mas o grosso dos produtos menstruais ainda são aos absorventes (internos e externos) descartáveis, não recicláveis e super nocivos ao meio ambiente (e ao corpo da mulher). É claro que não cabe a nós exclusivamente a solução desse problema, mas é preciso tentar mudar de hábitos já. Principalmente se você é privilegiada e pode pagar por produtos biodegradáveis ou laváveis. Lembre-se: empresas multinacionais lucram gazilhões com a nossa menstruação, não apenas com os absorventes mas também com os famigerados ‘sabonetes íntimos’. Encontrar soluções mais sustentáveis é também uma maneira de resistência anti-capitalista.

Usando esses três pilares, o ativismo menstrual visa combater o uso da menstruação como ferramenta de opressão. Assim como falamos de ‘lentes feministas’, podemos falar também de ‘lentes menstruais’. Pensar em nossos privilégios e como nossa menstruação pode ser usada para melhor combater o patriarcado.

Para quem quer dar continuidade nos estudos de ativismo menstrual, aconselho assistir a entrevista que fizemos com a fundadora da organização Bloody Good Period:



Livro maravilhoso sobre o assunto (em inglês): Periods Gone Public, da Jenniffer Weis-Wolf Documentário (Netflix) vencedor do Oscar: Period. End of Sentence.

E você, já conhecia ativismo menstrual?

Livro Feminista: It’s Only Blood (Shattering the taboo of menstruation), Anna Dahlqvist

Por Helô Righetto

Desde que eu e a Renata falamos sobre menstruação no canal, meu interesse por ativismo menstrual só cresceu. Li o livro Periods Gone Public (excelente), entrevistamos a fundadora do projeto Bloody Good Period em Londres e terminei mais uma leitura: It’s Only Blood (É apenas sangue) da sueca Anna Dahlqvist.

O livro é muito bom. A autora visita alguns países (como Índia, Nigéria, Uganda) para ver de perto como é a vida das meninas quando elas menstruam. Ela fala sobre vergonha, sobre absorventes (ou falta de), sobre banheiros, lixo, praticamente todos os aspectos que mulheres privilegiadas nunca perceberam que podem atrapalhar mulheres que não tem acesso aos mesmos privilégios quando estão menstruadas.

O único problema do livro é que parece uma grande reportagem de jornal, a narrativa é bem jornalística (ok, sei que isso não é ruim), o que não é o estilo de livro que mais gosto. Outra questão, mas que a autora acaba solucionando bem (já explico o porquê), é a visão de Norte Global: uma mulher sueca visitando países do Sul Global para apontar os problemas. E como ela resolve isso? Ela fala com as mulheres desses países, não apenas as que enfrentam problemas mas as que estão ajudando a resolver. Mulheres líderes de campanhas e instituições que colocam o ativismo menstrual como assunto central na vida de meninas.

Para quem está buscando mais e mais informações sobre menstruação com lentes feministas, vale a leitura! Li em inglês.