Faça política como uma mãe (feminista!)

Por Renata Senlle

No dia 1º de setembro, participei de uma roda de conversa com o tema #mãesnapolítica, liderado pela ativista Anne Rammi, que é candidata a deputada estadual numa proposta diferente, com mandato coletivo, pela Bancada Ativista do PSOL.

A conversa reuniu um grupo de mães interessadas em falar das suas questões e em como isso reverbera no mundo político. Eram mulheres que não se veem representadas pelos eleitos aos cargos políticos. Mulheres que tem suas demandas diárias de vida pouco levadas a sério. Mulheres que entenderam que “o futuro do movimento feminista é angustiar a sociedade, deparando-a com problemas que, até agora, as mulheres tentaram resolver sozinhas”, como bem disse a escritora Rosiska Darcy de Oliveira no livro A Emergência do Feminino.

Pra não cair no textão, reuni alguns tópicos da conversa e que pontuam a urgência de a gente ter mais mulheres feministas no poder:
  • 83% das mulheres no Brasil são responsáveis pelos cuidados com os filhos.
  • Como fica a saúde mental das mulheres pós-filhos, dada a invisibilidade com que somos tratadas a partir do parto?
  • E o grande puerpério que é não se reconhecer após o parto, independentemente do tempo que faz o nascimento dos filhos.
  • Estamos em 2018 e não tem banheiro para criança, nem adequação de acessibilidade em transporte público. As crianças não existem. Mal são vistas como pessoas.
  • Onde estão as crianças nos dias não letivos das escolas? Quem cuida delas?
  • E as mães migrantes que não têm direitos políticos no país? A mãe migrante é como uma criança: precisa de alguém para falar e fazer por ela.
  • E os relatos de mulheres que já ouviram dos chefes que “rendem menos no trabalho por serem mães”?.
  • As mães viabilizam a sociedade. Nosso trabalho como mães é fundante da sociedade, mas somos vistas como meio e não como pessoas.
  • E as mães de filhos autistas que, não bastasse o perverso e bem intencionado discurso de “serem mães especiais” são recriminadas se querem fazer algo mais das suas vidas, além de cuidar dos filhos, porque, afinal “quem vai cuidar da criança?” (contém ironia nas aspas).
  • E o abandono paterno de 78% dos homens que largam as famílias em caso de nascimento de filhos com síndromes raras, de acordo com dados do Instituto Barese.
  • E as mães que já estão envolvidas politicamente que ouviram que “talvez não seja o momento da vida para fazer isso”.
  • Não adianta falar para uma mulher denunciar violência doméstica sem oferecer atendimento de cuidado para ela ser fortalecida depois disso. É preciso criar redes de apoio e fortalecimento.
  • Mulheres vítimas de abuso e violência devem ser realmente atendas pela polícia?
  • Devemos humanizar a polícia ou criar um atendimento diferente para esses casos com outra instituição responsável?


São temas e problemas que particularmente eu nunca vi nas pautas dos candidatos….

E pra fechar esse texto, vou de novo com Rosiska Darcy de Oliveira: “os interesses das mulheres estarão representados quando, no poder, uma mulher for capaz de agir como mulher, desafiando todo o estereótipo cultural que inferioriza a razão feminina como irracional e a sensibilidade feminina como sentimentaloide” “Não se trata de entrar na máquina política mas, talvez, de enguiçá-la para que outra se torne necessária, em que as mulheres possam funcionar”.