Maternidade e Vida Acadêmica – Parte I

Por Renata Senlle

Já disse e escrevi algumas vezes que a maternidade foi uma das portas pela qual entrei de vez no feminismo. Foi, pra mim a condição mais gritante em que as desigualdades entre homens e mulheres ficaram ainda mais evidentes em todos os âmbitos da vida. E o fato de o feminismo só ter se escancarado pra mim nessa etapa da vida, sinaliza meus tantos privilégios de mulher branca, classe média, cis gênero e heterossexual. Desse lugar no feminismo, encontrei bastante informação e discussão a respeito das relações entre maternidade e carreira, maternidade e relações afetivas, maternidade e espaço público, mas pouco de maternidade e vida acadêmica.

Adiciono aos meus privilégios o acesso a um mestrado em uma universidade pública. E nesse espaço estão rolando uma série de movimentos para tirar a maternidade de dentro das casas e da responsabilidade única e exclusiva das mães para que elas possam estudar. São debates e iniciativas que começam a escancarar as diversas dificuldades e sobrecargas que recaem sobre as mulheres mães que também querem, podem e devem se dedicar à vida acadêmica. Eu mesma, só consegui me dedicar a isso depois que me separei. Com guarda compartilhada real, consegui ter um tempo sem criança para estudar.

Algumas iniciativas vêm contribuindo pra isso, como Parent in Science, que apesar do nome em inglês, é um movimento organizado por um grupo de pesquisadoras brasileiras. O intuito é levantar a discussão sobre a maternidade (e paternidade!) para dentro do universo da ciência do Brasil. A discussão começou para dar conta da ausência de dados e de conhecimento sobre uma questão fundamental: o impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e homens.

Além de realizar seminários em diversas universidades brasileiras, o grupo realiza um levantamento entre as cientistas com e sem filhos, para entender as consequências da chegada dos filhos na carreira científica de mulheres e homens, em diferentes etapas da vida acadêmica.

Para começar a sinalizar e conscientizar para os impactos da maternidade entre a produtividade das pesquisadoras, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou em março deste ano a inclusão de uma aba com os períodos de licença maternidade e paternidade no currículo Lattes, depois de um pedido assinado por cientistas mulheres. O Lattes é a principal plataforma para inclusão de publicações e desenvolvimento de pesquisa no país.

As relações entre maternidade e vida acadêmica também foram o tema de uma mesa realizada durante o 1º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG, em 2018. Pesquisadoras trocaram experiências e reflexões de como superar obstáculos, contribuindo para que homens e mulheres tenham, de fato, oportunidades iguais no universo da ciência.

E a Universidade Federal Fluminense (UFF) publicou um edital no início de 2019 que inclui um mecanismo inédito para equilibrar a concorrência de homens e mulheres na disputa por bolsas de iniciação científica. No concurso, as professoras que tiveram filhos nos últimos dois anos podem ter acréscimo de cinco pontos — caso não atinjam a pontuação máxima — como forma de compensar o tempo de licença-maternidade em que não produziram trabalhos acadêmicos, um dos critérios para a escolha dos bolsistas.

A reivindicação pelos direitos das mulheres aos estudos é pauta da primeira onda feminista, bem exemplificada pela escritora inglesa Mary Wallstonecraft no livro: Reivindicação dos Direitos das Mulheres de 1792 (temos dois hangouts sobre ela, aqui e aqui). O pleno acesso das mulheres à academia é a radicalização desse demanda. E a maternidade, construída socialmente como atribuição majoritariamente feminina, trazendo uma tripla jornada repleta de trabalho invisível que te dizem que você deve fazer por amor, ainda se transforma numa enorme barreira em diversos aspectos da vida. Entre eles, a continuidade dos estudos acadêmicos. Precisamos dar visibilidade às mulheres mães e situar os obstáculos que sofrem em todos os ambientes.

A foto é dessa matéria ótima a respeito da necessidade de suporte para quem tem filhos e estuda em universidade. Conhece outras iniciativas em prol das mulheres mães no ambiente acadêmico? Escreva nos comentários, pfv!

O que é Feminismo Matricêntrico?

Por Renata Senlle

Se você é mãe e sente que o Feminismo exclui ou ignora as pautas da maternidade e das mães, esse post é pra você! Eu já escrevi aqui sobre Maternidade Patriarcal e de ‘Feminismo Matricêntrico’. Mas expliquei pouco esse último. O termo foi cunhado por Andrea O’Reilly, a pesquisadora canadense que há décadas batalha por uma teoria, um ativismo e uma prática próprias para as mães dentro do feminismo. É a minha nova musa.

O Feminismo Matricêntrico entende que maternar é central na vida das mulheres, mas não sugere e nem defende que a maternidade é tudo o que importa nessa vida ou que isso importa acima de tudo. Nós, mães, somos moldadas em definitivo pela maternidade, mas não somos apenas mães.

O’Reilly sugere um feminismo que coloque a maternidade no centro. Para a pesquisadora (e tô aqui gritando de concordância), o feminismo vem ignorando a maternidade nos últimos 40 anos e as mulheres mães continuam oprimidas duplamente: porque são mulheres e porque são mães. E isso sem contar as demais camadas que fazem intersecções de opressão: de classe, de raça, de orientação sexual, de idade, etc.

Veja bem, ela não quer substituir o feminismo pelo feminismo matricêntrico. Quer apenas enfatizar que a categoria das mães difere da categoria ‘mulher’ e que muitos dos problemas que as mães sofrem – sociais, econômicos, políticos, culturais, psicológicos e etc – são específicos dos papéis e da identidade que elas desempenham por serem mães. Entendo que seria uma outra vertente feminista.

Mas afinal do que ele trata e o que propõe? No artigo ‘The baby out with the bathwater:the disavowal and disappearance of motherhood in 20th and 21st century academic feminism’ (em livre tradução: ‘Jogar o bebê fora junto com a água do banho: a recusa e o desaparecimento da maternidade no feminismo acadêmico dos séculos XX e XXI’) Andrea O’Reilly articula sete itens de uma lista que considera parcial e provisória para compor o Feminismo Matricêntrico. Traduzi e adaptei livremente aqui pra espalhar essas palavras também em português:

O ‘Feminismo Matricêntrico’…

1) afirma que o tema das mães, da maternagem e da maternidade é merecedor de sérias e consistentes investigações acadêmicas (ela tem uma pesquisa mostrando como a temática da maternidade é ausente também no ambiente acadêmico dentro dos estudos feministas e de gênero no Canadá, mas arrisco dizer que não é exclusividade de lá);

2) Considera a maternidade como um trabalho que é importante e valioso para a sociedade, mas enfatiza que a tarefa essencial da maternidade não é, e não deveria ser, a única responsabilidade e dever das mães;

3) Contesta, desafia e sinaliza a instituição opressiva da maternidade patriarcal e busca imaginar e criar uma prática e uma identidade para a maternidade que empodere as mães;

4) Foca em corrigir a centralização da criança que define muito dos estudos acadêmicos e do ativismo sobre a maternidade e busca desenvolver pesquisa e ativismo a partir da experiência e da perspectiva das mães (AMO!);

5) Compromete-se com a mudança e a justiça social e considera a maternidade como uma empreitada de engajamento social com seu próprio lugar de poder, em que as mães podem e realmente criam uma mudança social através da criação de filhos e de seu ativismo;

6) Compreende que a maternidade e a maternagem são culturalmente determinadas e variáveis, e se compromete em explorar as diversas experiências existentes de forma interseccional, de acordo com raça, classe, cultura, etnia, orientação sexual, capacidade física, idade e localização geográfica;

7) Se esforça para estabelecer uma teoria materna e estudos sobre a maternidade como uma disciplina autônoma, independente e legítima de disciplinas acadêmicas.

Enfim, o Feminismo Matricêntrico é a vertente que faltava na minha vida de mãe feminista. Para quem se interessar mais, Andrea O’Reilly tem um livro a respeito, lançado em 2016: Matricentric Feminism – Theory Activism and Practice.

*Imagem tirada do Militância Materna, que recomendo bastante!

Maternidade patriarcal e feminismo matricêntrico

Por Renata Senlle

Eu acredito, por experiência própria, que a maternidade pode ser libertadora dos conceitos patriarcais. Não por que seja livre dele, mas justamente porque a partir da maternidade é possível entender como ela é peça principal dessa engrenagem machista, com um modo próprio e bem definido de opressão que detalha como devemos ser, agir e pensar. Nasce uma mãe e nasce toda uma série de demandas e exigências infinitas, impossíveis de serem alcançadas.

Essa é a Maternidade Patriarcal que, por ser absoluta e sutilmente violenta, pode nos empurrar à força rumo ao feminismo. Muitas mulheres que conheço entenderam a urgência do feminismo depois de terem filhos, porque toda a sorte de desigualdades se escancara até entre as mais privilegiadas.

Levei esse interesse para minha pesquisa de mestrado e conheci o trabalho de uma pesquisadora da maternidade, a Andrea O’Reilly, da Universidade de York, em Toronto (Canadá), por meio de um artigo traduzido pela doutora em comunicação e semiótica da PUC-SP, Maria Collier de Mendonça.

O’Reilly listou 10 pressupostos ideológicos da Maternidade Patriarcal:

1.Essencialização, ou seja: a mulher é fundamentalmente mãe.

2.Privatização: que faz do maternar exclusividade da vida privada, doméstica.

3.Individualização: como se maternidade fosse trabalho de uma única pessoa, centralmente a mãe.

4.Naturalização: infere que a maternidade é natural e que já nascemos sabendo como maternar e que não é preciso desenvolver inteligência ou habilidade e qualificação.

5.Normalização: limita o modelo às famílias nucleares heteronormativas na qual a mãe e esposa é a principal cuidadora. 6.Biologização: posiciona a mãe biológica como a autêntica e a real.

7 e 8.Especialização e Intensificação: defende que a prática de maternar seja guiada por especialistas, com demandas extenuantes em termos de energia, dinheiro e esforço maternos muito intensos.

9.Idealização: estabelece modelos inatingíveis que reforçam as expectativas e cobranças das mães sobre si mesmas e da sociedade sobre as mães.

10.Despolitização da Maternidade: isola a criação e educação dos filhos como atividades privadas, como se não tivesse relação e/ou implicações sociopolíticas.

Esses 10 tópicos seriam a estrutura que mantém a maternidade como uma instituição patriarcal. Quem se identifica?

Mas como foram construídos, podem ser desconstruídos. E, para serem desconstruídos, requerem um feminismo próprio, que O’Reilly descreve como Feminismo Matricêntrico para tratar das nossas questões de mãe com a relevância, a visibilidade, a seriedade e a urgência que elas têm.

Faça política como uma mãe (feminista!)

Por Renata Senlle

No dia 1º de setembro, participei de uma roda de conversa com o tema #mãesnapolítica, liderado pela ativista Anne Rammi, que é candidata a deputada estadual numa proposta diferente, com mandato coletivo, pela Bancada Ativista do PSOL.

A conversa reuniu um grupo de mães interessadas em falar das suas questões e em como isso reverbera no mundo político. Eram mulheres que não se veem representadas pelos eleitos aos cargos políticos. Mulheres que tem suas demandas diárias de vida pouco levadas a sério. Mulheres que entenderam que “o futuro do movimento feminista é angustiar a sociedade, deparando-a com problemas que, até agora, as mulheres tentaram resolver sozinhas”, como bem disse a escritora Rosiska Darcy de Oliveira no livro A Emergência do Feminino.

Pra não cair no textão, reuni alguns tópicos da conversa e que pontuam a urgência de a gente ter mais mulheres feministas no poder:
  • 83% das mulheres no Brasil são responsáveis pelos cuidados com os filhos.
  • Como fica a saúde mental das mulheres pós-filhos, dada a invisibilidade com que somos tratadas a partir do parto?
  • E o grande puerpério que é não se reconhecer após o parto, independentemente do tempo que faz o nascimento dos filhos.
  • Estamos em 2018 e não tem banheiro para criança, nem adequação de acessibilidade em transporte público. As crianças não existem. Mal são vistas como pessoas.
  • Onde estão as crianças nos dias não letivos das escolas? Quem cuida delas?
  • E as mães migrantes que não têm direitos políticos no país? A mãe migrante é como uma criança: precisa de alguém para falar e fazer por ela.
  • E os relatos de mulheres que já ouviram dos chefes que “rendem menos no trabalho por serem mães”?.
  • As mães viabilizam a sociedade. Nosso trabalho como mães é fundante da sociedade, mas somos vistas como meio e não como pessoas.
  • E as mães de filhos autistas que, não bastasse o perverso e bem intencionado discurso de “serem mães especiais” são recriminadas se querem fazer algo mais das suas vidas, além de cuidar dos filhos, porque, afinal “quem vai cuidar da criança?” (contém ironia nas aspas).
  • E o abandono paterno de 78% dos homens que largam as famílias em caso de nascimento de filhos com síndromes raras, de acordo com dados do Instituto Barese.
  • E as mães que já estão envolvidas politicamente que ouviram que “talvez não seja o momento da vida para fazer isso”.
  • Não adianta falar para uma mulher denunciar violência doméstica sem oferecer atendimento de cuidado para ela ser fortalecida depois disso. É preciso criar redes de apoio e fortalecimento.
  • Mulheres vítimas de abuso e violência devem ser realmente atendas pela polícia?
  • Devemos humanizar a polícia ou criar um atendimento diferente para esses casos com outra instituição responsável?


São temas e problemas que particularmente eu nunca vi nas pautas dos candidatos….

E pra fechar esse texto, vou de novo com Rosiska Darcy de Oliveira: “os interesses das mulheres estarão representados quando, no poder, uma mulher for capaz de agir como mulher, desafiando todo o estereótipo cultural que inferioriza a razão feminina como irracional e a sensibilidade feminina como sentimentaloide” “Não se trata de entrar na máquina política mas, talvez, de enguiçá-la para que outra se torne necessária, em que as mulheres possam funcionar”.