Maternidade compulsória #07: ‘uma mulher não é completa sem a maternidade’

Por Helô Righetto

Esse é o sétimo post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quem define o significado de ser mulher? Cabe a cada uma de nós entender como expressa – e se quiser expressar – o gênero mulher. Mas, já sabemos, nossa individualidade vale pouco no contexto de uma sociedade patriarcal. E até mesmo dentro desse contexto, parece que a lista a ser preenchida para recebermos o certificado ‘mulher’ nunca será preenchida.

A maternidade, por exemplo. Para a sociedade patriarcal uma coisa não existe sem a outra: ser mãe está profundamente conectado ao ser mulher. A mulher que segue outro caminho está desviando de sua história predestinada, e uma pessoa não binária ou um homem trans que vem a parir rompe completamente com o ‘ser mulher’ . Não nos encaixamos.

De novo, como venho tentando mostrar nessa série, as mulheres que são mães também sofrem com exigências. Não basta ser mãe de uma criança (Mas você não vai ter outro bebê? Essa criança vai ficar mimada), não basta ser mãe em tempo integral (Mas você faz o que o dia inteiro?), não basta maternar e ter um outro trabalho (Nossa, sua filha fica o dia inteiro na creche?), não basta ter duas meninas (Não vai tentar um menino?), não basta ter três filhos (Mas vocês tem filhos demais hein? E sua carreira?), não basta, não basta. Nunca está bom.

É frustrante, eu sei, a gente ouvir de outras mulheres que não somos completas porque nos falta a maternidade. Mas se a gente colocar um olhar feminista nessa fala, até dá pra entender (não digo que precisamos reprimir nossa frustração ou tristeza, ou que temos que ficar quietas se nos deparamos com esse tipo de discurso) da onde vem isso. A maternidade carrega muita construção social sim (e ninguém está aqui questionando o amor maternal ou o quanto é importante criar/educar o futuro desse mundo), e por vezes pode perpetuar algumas mensagens que, para quem está do lado de lá, não parecem enraizadas no patriarcado.

Nós, feministas, não estamos livres de perpetuar machismo. Ou racismo. Ou gordofobia. Ou transfobia. Mulheres que são mães, portanto, não estão livres de passarem pra frente essa visão arcaica de que toda mulher deveria ser mãe.  Ou, pelo menos, as mulheres brancas e privilegiadas financeiramente. Afinal, mulheres periféricas, pobres, negras ou mães solo, certamente escutam e lidam com uma avalanche de preconceitos.

Porque mãe completa não é toda e qualquer mãe. É a mãe que é hétero, casada, tem dinheiro, é branca, e não reclama do trabalho invisível e da carga emocional da maternidade.

Eu sou uma mulher completa. Eu sou uma mulher.

 

Maternidade compulsória #06: ‘ter filho não é pra qualquer um mesmo’

Por Helô Righetto

Esse é o sexto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Há uns tempos, quando falei em uma rede social sobre a escolha de não ser mãe, recebi uma resposta mais ou menos assim: ‘Fora que tem um monte de mãe que era melhor não ter sido mãe. Deveriam fazer uma prova, porque não é pra qualquer uma mesmo’. De novo, como já falei tantas vezes durante os posts dessa série, eu entendi a boa intenção por trás dessa frase. Mas, é claro, ela é problemática.

E ela ofende não só quem decide que não quer ser mãe, mas as que são e querem ser mães também (já falei no início da série que a maternidade é algo holístico né, que falar de não ser mãe é também envolver as mães e vice versa). Afinal, quem é que decide o que é ou o que não é uma ‘boa mãe’? Existe tanto machismo e tanto apagamento na maternidade, e as mães precisam o tempo todo lidar com a culpa e com o peso da maternidade perfeita, por que ainda tem quem ache que possa definir o que é e o que não é ‘boa maternidade’?

Taí, mais uma vez, a falta de senso do coletivo. A falta de empatia. E a falta de noção da realidade fora da sua bolha. Já ouvi inclusive pessoas privilegiadas questionando o direito a maternidade de pessoas pobres.

Para uma mulher que não quer ser mãe, essa afirmação mais uma vez a reduz a um corpo e mente pensante que para nada serve. E, de novo, o fato de eu não querer ser mãe não tem a ver com a minha falta de capacidade para ser responsável por outro ser humano. Eu (de novo, já falei isso antes) me considero parte fundamental da minha comunidade e não ter filhos não me tira a responsabilidade de construir um futuro sustentável para as próximas gerações. Ou seja, essa ‘barreira’ criada por supostas características essenciais para exercer a maternidade ficam ainda mais irrelevantes.

A experiência de uma mulher como mãe não define como deve ser a experiência das outras. Aliás, a experiência de uma mulher como mãe não é a base para definir toda e qualquer experiência na vida de todas as mulheres. Sim, eu sei que maternar é desafiador, é uma missão complexa e cheia de altos e baixos, mas não coloca ninguém acima de ninguém.

Maternidade compulsória #05: ‘você seria uma ótima mãe’

Por Helô Righetto

Esse é o quinto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quando uma mulher pega um bebê no colo ou brinca um pouquinho com ukma criança, ela escuta duas coisas: ‘tá treinando?’ e ‘ser mãe combina com você, olha como você seria uma ótima mãe’.

Obrigada, pessoa, já que você tem tanta certeza de que eu segurar um bebê no colo por 10 minutos faz de mim uma boa mãe, vou providenciar um filho é agora! Não sei porque as mães que eu conheço falam que a maternidade é romantizada e na verdade maternar dá bastante trabalho, já que você está aqui me falando que basta segurar a criança no colo ou brincar com ela um pouquinho pra ser uma boa mãe. Uau. Você devia ser coach!

Ironias a parte, essa fala mostra o quanto a mulher é tida como ‘ser sem poder’: parece que estamos aguardando alguém nos sinalizar uma aprovação para que a gente prossiga com as nossas vidas. Ainda pior, mostra como a sociedade acha que a única interação entre mulheres e crianças é através da maternidade. Não podemos ver uma mulher – e pode ser uma dolescente – e uma criança sem já entregarmos pra ela o título de mãe.

É surpreendente que uma mulher que não quer filhos goste de crianças, porque somos imediatamente rotuladas do oposto. ‘Você não quer filho, achei que não gostasse de crianças!’.

Por fim, eu – e tenho certeza de que muitas mulheres na mesma posição que eu – não tenho dúvida de que seria uma boa mãe. Não é por isso que fiz minha escolha. (Isso sem entrar no mérito do que caracteriza uma boa mãe né? Porque vamos combinar, pra ser bom pai a expectativa é bem mais baixa.) E ser ‘uma boa mãe’ não faz de mim um ser humano melhor. Não estamos em busca dessa aprovação, não colocamos uma petição no change.org aguardando 10 mil assinaturas de pessoas que atestam que temos as devidas características para sermos boas mães.

Somos boas cidadãs. Isso basta.

Maternidade compulsória #04: ‘só uma mãe sabe o que é amor de verdade’

Por Helô Righetto

Esse é o quarto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

O que ou quem você ama? Você ama sua casa, seus pais? Sua irmã, seu irmão, suas amigas? Sua esposa, seu namorado, suas amantes? Você ama viajar, ama ler, amar ir ao parque? Você ama comer macarrão ou doce de leite? Você ama seu gato, sua cachorrinha? Ama arte? Nós amamos muitas pessoas, muitas situações, muitas coisas. Eu tenho certeza de que não podemos, nem queremos, hierarquizar esses amores. Aliás, pra que o faríamos? Amor não é limitado, e não é uma fórmula única.

Por que, então, achamos que uma mulher que não quer ser mãe, jamais vai saber o que é amor ‘de verdade’? Essa afirmação coloca o amor de uma mãe pela sua filha ou seu filho como medida para o amor de todas as outras pessoas. E, apesar de parecer que fala de amor, é na verdade uma afirmação cruel, que considera os amores da vida de uma mulher que não é mãe menos importantes. De novo, não há medida para o amor.

A ideia de que amor de verdade é apenas o amor entre mãe e filhos/filhas, é mais uma dessas ‘pegadinhas’ patriarcais. Não é muito tentadora a ideia de que no momento que uma criança entra em nossas vidas elas estão finalmente completas, finalmente cheias de amor? Não é triste pensar em uma vida onde não há amor ‘de verdade’? Essa romantização da maternidade – que fala de amor mas não fala de solidão, de desigualdades, de exclusão da mãe, de discriminação da mãe – não serve pra ninguém. Nem pra mim, que não quero ser mãe, nem pra mulher que quer porém enfrenta obstáculos, nem para a mulher que quer ou é mãe e está feliz assim. Quando falamos que há apenas um amor que é de verdade, mascaramos todas as dificuldades da maternidade e silenciamos todos os outros amores, todos os outros caminhos que podem ser explorados além da maternidade.

Acho que precisamos buscar amor sim. E quando digo amor, fica implícito o ‘de verdade’. E que esse amor tenha muitas possibilidades.

Maternidade compulsória #03: ‘e se você se arrepender?’

Por Helô Righetto

Esse é o terceiro post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Você já experimentou fazer essa pergunta para uma mãe? Óbvio que não (e não acho que deve ser feita em hipótese alguma). Então por que perguntar para alguém que não quer ter filhos sobre um possível futuro arrependimento?

É fato: todas nós vamos nos arrepender de alguma coisa nessa vida. Não dá pra gente acordar de manhã e fazer nossas escolhas rotineiras pensando que talvez, quem sabe, nos arrependeremos no futuro. A gente muda, o mudo muda (ainda bem), e arrependimentos acontecem. Viver pensando em evitar arrependimentos é desrespeitar quem é você HOJE.

Se uma mulher se arrepender de não ter tido filhos, o problema não é seu. Respondo por mim: sim, não há garantias que eu não me arrependa, e não sei o que vai acontecer se eu acordar um dia e achar que deveria ter tido filhos. Mas o que posso te dizer é que minha decisão hoje é embasada em muito auto-conhecimento. São anos me questionando, observando a maternidade ao meu redor. São anos pensando ‘será que há algo de errado comigo?’ por não querer ter uma criança. Se até hoje eu consegui seguir firme nessa decisão, posso ter a tranquilidade de que a eu do futuro vai lidar com uma possível (porém improvável) frustração conhecendo a eu do passado. E a possível arrependida eu do futuro não se esquecerá de seus questionamentos internos e da vontade enorme de viver sem filhos do passado.

E, como falo desde o começo dessa série, não ter filhos não significa virar as costas para a continuação da humanidade. Eu sei que sou parte ativa da sociedade e que cabe a mim participar na criação de filhas e filhos de pessoas do meu entorno. Eu quero que minha existência deixe marcas, deixe legado, e minha preocupação com o futuro é tão válida quanto a preocupação de quem tem filhos. Minha luta feminista é a longo prazo, e não será encerrada no momento que minha vida acabar: ela continuará através das crianças geradas e criadas pelas minhas pares.

A possível-porém-improvável-não-mãe-arrependida sabe que feminismo é uma via de duas mãos: poderei contar com as minhas pares para dividir com elas as delícias e dores da maternidade.

Maternidade compulsória #02: ‘você só pensa em si mesma’

Por Helô Righetto

Esse é o segundo post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Resolvi colocar essa afirmação nesse segundo post não por acaso. Mulheres que decidem não ter filhos são geralmente chamadas de egoístas. Mas não é um tanto quanto contraditório, já que a mesma sociedade que nos acha egoísta se “preocupa” com quem vai cuidar da gente na velhice? Ter filhos para garantir uma velhice amparada não é egoísta?

Apesar de ser tentador continuar por esse caminho “egoísta não sou eu é você” prefiro encarar essa afirmação como mais uma prova de que não nos é permitido ter controle sobre o nosso próprio corpo (e isso as mães também enfrentam – como eu escrevi no primeiro post da série, aqui na Conexão Feminista a gente aborda maternidade de forma holística, não tem essa de “nós contra elas”).



Também não é permitido que uma mulher se coloque como prioridade na sua vida. Afinal, somos vistas como as cuidadoras, como as que abrem mão de suas carreiras, bem estar, vontades, em prol do cuidado pelos outros. Eternas cuidadoras, sem é claro ganhar nada por isso. A partir do momento que a gente se entende como prioridade, somos vistas como ameaças a manutenção de uma sociedade patriarcal, onde a mulher não é bem vista em espaços de poder.

Porém, é preciso tomar cuidado para não confundir auto-prioridade (será que esse termo existe?) com feminismo. Sim, temos que cuidar de nós, não somos pessoas terríveis por não abdicarmos de nossas vontades para cuidar dos outros, mas temos também que entender que esse posicionamento precisa ter algum desdobramento no coletivo. O feminismo é pelo coletivo.

Essa série de posts é um exemplo disso. Somos, afinal, um grupo de 30 mulheres que questiona a maternidade. Juntas, compartilhamos frustrações e decidimos falar sobre elas. Sobre sermos donas de nossos corpos. Falar sobre isso é certamente o contrário de egoísmo.

Maternidade compulsória #01: ‘mas quem vai cuidar de você na velhice?’

Por Helô Righetto

Quem acompanha nosso trabalho na Conexão Feminista sabe que maternidade é um tema constante nas nossas plataformas. Temos inclusive uma playlist no canal dedicada ao tema. Mas a gente não acha que maternidade é só sobre ter filhos. Pode parecer estranho, mas é sobre não tê-los também. Nossa sociedade reverencia a maternidade e julga que a mulher só cumpre seu papel quando vira mãe. Porém, a mesma sociedade vira as costas para mães, as excluindo de lugares públicos e instituições: política, trabalho, lazer. Tratamos as mães como meros ‘espaços’ a serem preenchidos por bebês: no momento que anunciam a gravidez, são ‘anuladas’ e tornam-se propriedade pública. São invisibilizadas, diminuídas e desrespeitadas.

Às mulheres que decidem por não ter filhos, são destinadas as perguntas e comentários bizarros. Os olhares tortos, o interesse desconcertante e desrespeitoso em nossas relações – com parceiros/parceiras, pais, mães, sobrinhos – como se algo estivesse errado. Como se nossas vidas não tivessem sentido. Afinal o que farão essas mulheres já que não se ocuparão de crianças?

Essa nova série de textos – esse é o primeiro de muitos! – é baseada na experiência de 30 mulheres que toparam nos contar as coisas absurdas que já escutaram simplesmente porque não desejam ter filhos. Fizemos uma compilação de frases – o que deu origem a nuvem de palavras que ilustra esse texto – e as que mais se repetiram foram escolhidas para serem rebatidas aqui. O título ‘maternidade compulsória’ foi escolhido pois representa a construção social e a romantização da maternidade. Por ser algo entendido como obrigatório na vida de mulher, quando não é realizada acaba gerando o estranhamento já falado anteriormente. Pode parecer estranho a gente usar a palavra maternidade em uma série de textos que justamente fala sobre não ter filhos. Mas como falei no primeiro parágrafo, maternidade é algo holístico – ser ou não mãe e saber que seu corpo é político com ou sem filhos, é essencial para que a gente se entenda como coletivo.

Feita a introdução da série, vamos ao comentário absurdo mais comum já ouvido pelas mulheres que não desejam ser mães: mas quem vai cuidar de você na velhice?

Essa frase foi escolhida como a primeira a ser dissecada porque foi a mais comum entre todas as participantes. A preocupação com o nosso futuro pode até ser bem intencionada, mas revela que a sociedade enxerga os filhos como propriedade dos pais, colocando nas costas deles uma pressão imensa mesmo antes de nascerem. É justo a gente exigir que filhos cuidem dos pais, principalmente nessa sociedade capitalista onde a maioria das pessoas trabalha pra sobreviver? Será que essa visão de ter filhos para garantir uma velhice supervisionada não está romantizada? Uma visão bastante privilegiada, pois você assume que, se seus filhos não puderem cuidar de você, pagarão alguém para fazê-lo. E dá pra garantir esse alívio financeiro? E se seus filhos tiverem seus próprios filhos pra cuidar? Essa é uma visão também capacitista: se o filho não puder fisicamente ou mentalmente cuidar de seus pais, quer dizer que colocá-lo no mundo não valeu a pena?

E quem garante a boa relação entre pais e filhos? De novo, essa visão romantizada da maternidade perfeita, da família perfeita.

Uma pessoa que não tem filhos não é necessariamente uma pessoa solitária. É possível ter uma velhice feliz e saudável, com ou sem filhos. Mais estranho do que perguntar para uma mulher quem vai cuidar dela na velhice é achar que toda pessoa precisa de cuidados o tempo todo (olha o etarismo aí, gente!!!). Pessoas velhas não são pessoas inválidas, e muitas tem os melhores anos de sua vida justamente porque os filhos são independentes.

Boas relações familiares não são necessariamente baseadas em cuidado intenso. E cuidado não precisa (nem deve) ser algo exclusivo dos familiares.