Museu Nacional, Maria Leopoldina e Independência

Convidamos a Juliana Fleig Bueno, historiadora e pesquisadora de gênero, para escrever um texto sobre o Museu Nacional. Aí vai! Obrigada Juliana por nos ajudar a deixar essa homenagem ao Museu aqui na Conexão

7 de setembro de 1822

Viva a independência e a separação do Brasil. Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro promover a liberdade do Brasil. Independência ou morte!

Apesar de não ser a mais conhecida, essa foi a frase proferida por Dom Pedro I há quase 200 anos, data que marca a – controversa – independência do Brasil. A colônia se tornava independente de sua metrópole, Portugal.

Não trago novidades, todos aprendemos isso na escola e ouvimos todos os setembros sobre o assunto, mesmo que seja para somente nos alegrar porque teremos um dia extra de folga, como o que ocorreu na última sexta-feira.

O que muitos não sabem, ou se talvez nunca ninguém tenha se esforçado para nos ensinar – ou nós para aprender – é que uma mulher fez parte desse processo. Maria Leopoldina da Áustria foi a primeira esposa de Dom Pedro I, e consequentemente se tornou imperatriz quando o Brasil deixou de ser Colônia e se tornou um Império. Também é a mãe de Dom Pedro II, imperador até o nosso país se tornar República.

Mas como toda mulher, Maria Leopoldina foi muito mais que esposa e mãe. Talvez mais importante que isso, Maria Leopoldina foi uma das principais articuladoras do processo de independência – apesar de Dom Pedro I ter tomado para si toda a glória, como visto na frase que inicia esse texto.

Nascida Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena na Áustria, a então princesa Leopoldina não era alheia aos acontecimentos do período, entendia que havia o perigo da fragmentação territorial por grupos separatistas e acreditava na independência como única saída possível. Além disso, tornou-se a primeira mulher a assumir o poder no Brasil, quando em 13 de agosto de 1822 passou a ser a princesa regente com a viagem de Dom Pedro I para São Paulo. Também foi uma das responsáveis por convencer seu marido a aderir ao processo, e por isso é uma das principais articuladores da independência.

No dia 2 de setembro de 1822, sabendo que a quebra dos laços com Portugal era o melhor caminho, Maria Leopoldina organizou uma reunião do Conselho de Estado na qual foi decidida e formalizada a independência do Brasil. Essa reunião ocorreu no Paço da Boa Vista, Rio de Janeiro.

O que Maria Leopoldina não sabia naquele 2 de setembro é que 196 anos após sua decisiva ação – extremamente incomum para uma mulher de seu período –, o fogo destruiria o local em que este importante fato histórico ocorrera.

E nós, 196 anos depois, precisamos que o fogo destruísse o Paço da Boa Vista, então Museu Nacional do Rio de Janeiro, para lembrarmos que mulheres também tiveram seu papel na história e não eram apenas figurantes ou bibelôs que embelezam o ambiente.

Nós precisamos do fogo para lembrar de Luzia, fóssil mais antigo encontrado na América Latina. A “primeira brasileira” – sim, uma mulher! – que viveu há mais de 10 mil anos em nossas terras e que nos mostrava que nossas antepassadas estavam lá, e que a natureza tratou de preservá-las.

Nós precisamos do fogo para lembrar de tantas outras relíquias perdidas num dos mais incríveis museus brasileiros, que abarcava História, Arte, Geografia, Ciência e tantas outras disciplinas.

Nós precisamos que fogo destruísse o elo passado-presente para lembrar de nosso passado e questionar o nosso presente.

Espero que o fogo que apagou nossa memória, que destruiu itens que jamais serão recuperados e substituídos, como acreditam alguns políticos, seja responsável por não nos fazer esquecer de que um povo é feito também de sua história.

Quando morre um museu, um pouco da gente morre junto, mas uma outra parte começa a viver e recordar. Talvez do fogo, como a fênix, renasceremos.