Vocês não vão falar sobre isso?

Por Helô Righetto

Esse é um post desabafo.

Quando algum caso ‘grande’ (por exemplo, que envolve alguém famoso) de violência contra a mulher vem a tona na grande mídia, a gente sempre recebe mesnsagens perguntando se vamos falar sobre o assunto. Agora, com o caso do médium João de Deus, não foi diferente. Algumas pessoas me procuraram nas redes sociais querendo saber se eu iria me pronunciar. Teve gente que simplesmente escreveu mensagem assim: fale sobre o João de Deus!

Minha primeira reação é: falar o que? O que eu preciso falar além de tudo que já está sendo mostrado na mídia?

Porém, pensando melhor (que é uma coisa que a gente exercita muito aqui na Conexão Feminista, refletir bastante antes de falar pra ter certeza de que temos algo pra acrescentar), nós falamos sobre isso o tempo inteiro. Falamos sobre violência contra a mulher, sobre como machismo cotidiano tem a ver com cultura do estupro e como é preciso falar sobre isso pra aprendermos a reconhecer violência e opressão.

Estamos sempre gritando, tentando ser ouvidas, usando todos os meios possíveis para conscientizar, compartilhar e educar. E a verdade é que muitas vezes a sensação é de que estamos gritando para as paredes. Ninguém quer ouvir. Ninguém tem tempo, ninguém tem paciência. ‘Ah, lá vem a estraga prazeres falar que é machismo’. Sim, sabemos da importância do nosso trabalho e sabemos que ele atinge muita gente. Mas essa cobrança é dolorida.

Isso sem contar na carga emocional de lidar com essas notícias. Não é porque somos ativistas que estamos imunes a emoções. Também sentimos tristeza, frustração e desespero quando ficamos sabendo de casos como esse. É aquela sensação de que nada vai mudar, de saber que tanto sofrimento acontece nesse momento e que estamos apenas vendo a ponta do iceberg.

Outra coisa interessante é que falta o reconhecimento do trabalho das ativistas feministas quando abusadores são desmascarados na grande mídia. Ninguém para pra pensar que, se não fosse o nosso trabalho de falar falar falar, ninguém se interessaria por isso. Que há uma razão pela qual a grande mídia está dissecando essa história e a razão é que nós, ativistas, estamos conseguindo mobilizar e chamar a atenção das pessoas para a violência contra a mulher. Pode ser a grande mídia mostrando, mas o trabalho de formiga é nosso.

Se prestassem mais atenção no que fazemos diariamente, essa cobrança não existiria. Nós falamos dos Joãos de Deus o tempo todo. Falamos do perigo de uma sociedade patriarcal e do poder nas mãos dos homens velhos, brancos, ricos. Falamos que só os homens tem o privilégio de terem sua vida pessoa separada de seu trabalho. Falamos de como é tóxico tratar outras culturas, religiões e tradições como instituições que precisam ser salvas enquanto as nossas são irretocáveis.

O tempo todo falamos de João de Deus. Nos escutem.

3 anos

Por Helô Righetto

No dia 25 de novembro, o Dia Internacional Pela Eliminação da Violência Contra Mulheres e Meninas, nós completamos 3 anos de vida. É pura coinciência de datas, no dia que fomos ao ar pela primeira vez, 25/11/2015, não sabíamos da existência desse dia. Esse foi apenas um dos incontáveis aprendizados nesses 3 anos.

Quando a gente foi pro ar pra falar de feminismo ao vivo, a gente não sabia muito no que ia dar. Queríamos apenas conversar, a cada duas semanas, e tínhamos até medo de não termos assunto suficiente. Hoje, nos falta é tempo pra falar de tudo que queremos.

Continuamos a ser um canal no Youtube, mas não nos definimos mais assim. A Conexão Feminista é uma plataforma digital que engloba canal, podcast, redes sociais e, é claro, esse site, onde podemos também publicar nossos textos. Tentamos utilizar todas essas ferramentas de forma a engrandecermos essa comunidade que a CF criou nos últimos 3 anos. Entendemos que não podemos simplesmente falar, falar, falar e ficar por isso mesmo. Nossas falas geram conversa, interação, engajamento – conexões (desculpem-me o trocadilho). A gente não tinha ideia de que nossa Conexão Feminista faria, de fato, fazer valer seu nome.

Em números, somos ‘pequenas’. Mas nos sentimos grandiosas. Nem sempre dispostas, muitas vezes cansadas, mas constantemente reavaliando nossa maneira de fazer ativismo digital.

Esse último ano foi, particularmente, um ano de conquistas. Fechamos a meta do nosso financiamento coletivo e colocamos o Intercâmbio Feminista em prática. Fizemos uma ação especial no mês das mulheres, com um vídeo por dia no canal. Alcançamos a marca de mais de mil ‘plays’ em alguns episódios dos podcasts. Colocamos esse site no ar. Falamos com candidatas a Deputadas Estadual e Federal, dando continuidade a série ‘Conexão Política‘.

Não foi um ano fácil para o ativismo feminista, talvez só uma amostra do que vem por aí. Mas uma certeza ninguém tira da gente: continuaremos aqui.

Parabéns e vida longa a Conexão Feminista!

Gostaríamos de agradecer a todas e todos que nos acompanham, formam nossa comunidade e de alguma forma contribuem para a continuidade da CF. Um obrigada especial a Claudia Senlle, Leo Melo e Dani Lima.

Machismo, literalmente

A linguagem é uma das ferramentas mais poderosas de qualquer país ou cultura. A maneira como falamos e escrevemos é carregada de mensagens que refletem nossos valores (por mais enrustidos que sejam). Acho que vocês já sabem onde quero chegar: mostrar que a linguagem – mais precisamente a língua portuguesa, já que é meu idioma natal e o que uso no meu dia a dia – é carregada de machismo e misoginia. O gênero masculino é o dominante no plural, essa é uma das primeiras coisas que aprendemos quando somos alfabetizados. Se existem 10 pessoas em uma sala e apenas uma dessas é pessoas é homem, é o suficiente para que o grupo seja tratado como “todos” em vez de “todas”, por exemplo. Recentemente, e principalmente nas redes sociais, a vogal “a” ou “o” passou a ser substituída pelo “x”, com o objetivo de neutralizar abordagens binárias e sexistas. Por mais inofensivo que pareça (já visualizo olhares de reprovação e comentários do tipo “ah mas essas feministas agora implicam até com a gramática?”), a masculinização das palavras no plural nos mostra que ser homem é a norma, é o que rege, é o correto. Em tempo: usar a letra “x” no lugar de “a” ou “o” tem seus problemas, principalmente no que se refere a acessibilidade. Softwares que lêem para pessoas com defici6encia visual não conseguem fazer essa pronúncia, por exemplo. Mas além das regras gramaticais, muito mais difíceis de serem percebidas como símbolos de machismo, as expressões que usamos de forma rotineira escancaram valores patriarcais. Eu sei que não preciso explicar o significado de nenhuma das expressões a seguir: “botar o pau na mesa”, “ter culhões”, “seja homem” são tão presentes no nosso dia a dia que falamos sem nunca pararmos por alguns segundos para escutar todo o machismo enraizado. É muito falocentrismo para um idioma só. São expressões que conotam poder, dominação e violência, utilizadas tanto para (e por) homens como mulheres. Já no caso de “mulherzinha” ou “correr como uma garota” (Você pode substiuir o “correr” por qualquer outra ação, como “jogar”, “lutar”, “chorar”), ou qualquer expressão que de alguma forma tenha ligação com a mulher ou feminilidade, tem conotação negativa: fraqueza, fragilidade, submissão. Essa percepção é perturbadora, e continuar utilizando esses termos é perpetuar esse assombroso abismo tão benéfico para a sociedade patriarcal. Não é “só uma expressão”, já que nenhum machismo é isolado. Linguagem machista, piadas machistas, cantadas constrangedoras e tantas outras ações que sozinhas parecem inocentes, fazem parte de um mecanismo complexo, que sustenta cultura de estupro, violência de gênero e tradições anacrônicas. Tão ou mais corriqueiros e misóginos do que as expressões citadas acima são os os xingamentos (aviso de gatilho: terei que escrevê-los). Já repararam que as ofensas dirigidas para mulheres tem um significado completamente diferente das que são dirigidas para os homens? Puta, vagabunda, vadia e afins, palavras com forte conotação (negativa) sexual são consideradas algumas das mais fortes quando o alvo é uma mulher. Bicha, veado, e qualquer outra palavra que questione a heterossexualidade masculina são as expressões mais utilizadas para ofender um homem. Ou seja, para xingarmos um homem, questionamos sua preferência sexual (o que é altamente homofóbico), ridicularizamos e afeminamos sua masculinidade. Para xingarmos uma mulher, questionamos sua condição imposta de “bela, recatada e dor lar”. Mulher promíscua não é mulher que mereça respeito, não é mesmo? A mulher é xingada até mesmo quando não é participante da discussão: filho da puta. Corno. Exemplos corriqueiros, mas que claramente mostram a culpa que a mulher carrega mesmo quando nada tem a ver com a situação. Erradicar a linguagem machista, admito, é um passo difícil. É um daqueles momentos que temos um espelho colocado a nossa frente, apontando todos os nossos preconceitos e hipocrisias. Nos descobrirmos feministas não parecia assim tão complicado. É muito mais fácil seguir escolhendo quais ítens da listinha de tarefas feministas adaptam-se ao nosso estilo de vida. Mas não é o feminismo que deve se adaptar ao nosso dia a dia, a nossa cultura. A transformação é trabalhosa.