Síndrome do Impostor – Como nós, mulheres, apontamos para o que nos desvaloriza?

Por Renata Senlle

Antes que esse pareça um texto escrito por quem venceu as barreiras da insegurança, da autocrítica excessiva, do julgamento alheio e da ruminação paralisante e conseguiu subverter anos de ensinamentos de como ser simpática, atenciosa e responsável, quero deixar bem claro que NÃO. Não é meu caso. Ainda estou na luta. Mas é um texto de quem já tem mais consciência de quando está agindo de acordo com a Síndrome do Impostor, esse fenômeno cujo nome foi cunhado pelas pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978, após observarem um padrão de sentimento negativo entre alunos que se destacavam academicamente, mas sentiam não merecer esse sucesso.

Se você se explica demais, minimiza suas conquistas, não leva crédito pelo que faz, sente que está incomodando e que não deveria se colocar no mundo, talvez esse texto te ajude a perceber alguns comportamentos de quem pode se identificar com a Síndrome do Impostor. Ando prestando atenção nos grupos de trabalho com mulheres em que algumas atitudes desnecessárias se repetem e que acabam fazendo a gente e o nosso trabalho ou realizações, parecerem menores, ou menos importantes:

Pedir desculpas em excesso: Repare como as mulheres se desculpam com muita frequência. Em e-mails, como se estivéssemos atrapalhando; nos grupos de whatsapp ou em reuniões, quando vamos manifestar uma opinião; e por muitos outros motivos que nem fazem sentido. Pedimos desculpas o tempo todo. Fica parecendo que não deveríamos falar, que não deveríamos estar ali ou que estamos devendo. Reforçamos mais o que não fizemos do que apontamos nossas conquista. O efeito é que, ao invés de sermos vistas como justas e humildes, somos percebidas como fracas e inseguras.

Produzir provas contra si mesma: Até o judiciário nos desobriga a isso: ninguém precisa produzir provas contra si mesmo. Mas nós mulheres fazemos isso direto! É muito perceptível em ambientes profissionais. Você está lá fazendo uma apresentação, encontra um erro no slide e o que faz? Aponta o erro pra todo mundo, pede desculpas, se desestabiliza e faz desse momento o ponto alto da apresentação. Veja, meu ponto aqui não é o de sugerir que a gente ignore os erros ou que não seja humilde. Mas não tem necessidade de bota-los no centro do palco e tacar mais luz neles. Principalmente quando ninguém nem tinha reparado e a omissão não vai causar mal algum.

Nos responsabilizar mais do que devemos: Seguimos nesse modo multitarefa insuportável e insalubre, achando que devemos dar conta de tudo. A grande armadilha da mulher maravilha. Mas sério, isso mata ou causa muita ansiedade e tira nosso foco de fazer melhor o que de fato é de nossa responsabilidade. Somos tão criadas para ajudar, acolher docilmente a demanda alheia que assumimos mais do que devemos. Coloquei um mantra: isso é realmente de minha responsabilidade? Se não, se liberta e segue a vida. Maass prestenção ao próximo comportamento.

Justificar demais: Se percebo que não é minha responsabilidade e digo NÃO, na sequência vem uma dificuldade de ficar em silêncio e não justificar. Alguém pede um favor que você não pode atender e, ao invés de dizer que não pode, já vem trocentas justificativas à mente. Elas mais fazem parecer que estou evitando fazer do que de fato não posso mesmo fazer. É libertador dizer apenas não, sem mais subterfúgios. E raro de alguém ser confrontada por isso. As pessoas não rebatem quem diz NÃO com segurança, pois percebem que ponderar a decisão não está mais em questão.

Tem mais itens pra complementar a listinha? Manda nos comentários!

E deixo aqui mais indicações pra complementar sua própria investigação a respeito do tema:

Se você lê em inglês e curte um texto acadêmico, aqui está o link para comprar o texto original que investiga e cunha o termo Síndrome do Impostor, pelas pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes, em 1978.

Aqui, dois livros que esbarram na auto-ajuda, porém, são grandes reportagens que ajudam a gente a entender o funcionamento da Síndrome do Impostor e as razões pelas quais as mulheres são menos confiantes do que os homens. Vale segurar a onda da problematização e colocar um filtro nesses títulos americanos associam sucesso diretamente à profissão. E depois deixa ficar na sua peneira aquilo que pode nutrir a sua vida dentro das suas próprias necessidades e expectativas de sucesso. Tem coisa boa neles. Juro!

A Arte da Auto-Confiança, das autoras Kattie Kay e Claire Shipman

Os Pensamentos Secretos das Mulheres de Sucesso, da autora Valerie Young

O jornal New York Times também fez um ótimo guia para lidar com a Síndrome do Impostor.

E aqui, por último e MAIS importante, o hangout que fizemos a respeito desse tema! Fonte da imagem aqui.

2 comentários sobre “Síndrome do Impostor – Como nós, mulheres, apontamos para o que nos desvaloriza?”

  1. Excelente artigo Rê! Venho trabalhando nestas questões nos últimos anos, ser assertiva, praticar a arte de dizer não sem sensação de culpa, evitar pedidos de desculpas desnecessários, também observo esses comportamentos nas mulheres que atendo no Programa Mudando de Rumos – Coaching Logoterapeutico. Vou encaminhar seu artigo para todas as mulheres que puder!

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