Simone de Beauvoir e a mobilidade ativa

Por Renata Senlle

Minha descoberta recente de que Simone de Beauvoir era adepta da mobilidade ativa* encheu meu coração de alegria! Foi como encontrar mais um ponto de identificação com ela, além do feminismo. Tenho pra mim que essa é uma prática de prazer que as mulheres podem dar a si próprias. Prazer. Há tempos, desde que adotei a bicicleta como meio principal, mas também sendo adepta de caminhar à pé pela cidade e de correr (mais por esporte e lazer, é verdade), que encaro esses momentos como oxigênio puro, que me colocam de volta em mim mesma.

[PAUSA para uma breve análise interseccional de que sei que sou uma mulher branca, classe média, moradora de uma região em que há mais ciclovias, iluminação, circulação de pessoas, ou seja de uma segurança pública menos pior. Não vou entrar no mérito da segurança das mulheres nas ruas nesse texto. Posso entrar em outro. Sei que ela existe, mas aqui quero falar dos benefícios à saúde física e mental. Também não vou falar da prática de acordo com raça e classe, que estão um pouco implícitas na abertura desse paragrafo – muito embora concorde e enfatize que essas intersecções mudam dramaticamente a experiência de cada uma de nós de acordo com esses recortes].

Mas voltando à Simone, na “dupla biografia” Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre – Tête-a-Tête, escrita por Hazel Rowley, há uma passagem a respeito da importância da caminhada na vida dela, aos 23 anos de idade: “Nas horas vagas dava grandes caminhadas. Em suas memórias descreve isso como comportamento obsessivo. “Se eu tivesse desistido de uma caminhada sequer, por indiferença ou para satisfazer um mero capricho, se eu tivesse alguma vez me perguntado o porquê daquilo tudo, eu teria destruído todo o edifício cuidadosamente elaborado”. Os passeios exaustivos protegiam-na “do tédio, do arrependimento e dos vários tipos de depressão”. Às quintas-feiras e aos domingos, sempre que não precisava dar aulas, saía de casa de madrugada com um vestido velho e alpargatas de lona, com um Guide Bleau e um mapa Michelan na mochila, e caminhava até 40 quilômetros por dia. E quando Sartre foi para a segunda guerra, ela escreveu que “caminharia sem parar, do contrário, seu coração explodiria”. Ele dizia que ela comia o mundo com seus pés e eu simplesmente adorei essa expressão.

Minha experiência pessoal com a prática da mobilidade ativa (como meio de transporte, mas também como pratica esportiva/lazer) é a de que me encontro comigo mesma toda vez. Vai muito além de praticar exercícios para fins estéticos. É prática pelo prazer da prática. É um momento em que estou comigo fazendo alguma coisa apenas para mim e por mim. Isso e fones de ouvido com música e eis que o mundo é meu. E descobri em Pierre Bordieu, no livro A Dominação Masculina – A condição feminina e a violência simbólica, a melhor definição do que vivo: “…a prática intensiva de um determinado esporte determina nas mulheres uma profunda transformação da experiência subjetiva e objetiva do corpo: deixando de existir apenas para o outro ou, o que dá no mesmo, para o espelho (instrumento que permite não só se ver, mas também experimentar ver como é vista e se fazer ver como deseja ser vista), isto é, deixando de ser apenas uma coisa feita para ser olhada, ou que é preciso olhar visando a prepará-la para ser vista, ela se converte de corpo-para-o-outro em corpo-para-si-mesma, de corpo passivo e agido em corpo ativo e agente.

Sem mais para o momento: inspire-se e saia por aí. Recomendo!

*PS: Mobilidade Ativa também é conhecida como mobilidade suave ou mobilidade não-motorizada é uma forma de ir e vir que faz uso unicamente de meios físicos do ser humano para a locomoção. Os meios de transporte ativos mais amplamente usados são andar a pé e de bicicleta. Todavia outros meios menos frequentes com propulsão humana como por exemplo, qualquer velocípede não-motorizado, patins, skate ou trotinetas, também se enquadram dentro da mobilidade ativa.

Foto: do livro: Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre – Tête-a-Tête, escrita por Hazel Rowley.

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