O que é Feminismo Matricêntrico?

Por Renata Senlle

Se você é mãe e sente que o Feminismo exclui ou ignora as pautas da maternidade e das mães, esse post é pra você! Eu já escrevi aqui sobre Maternidade Patriarcal e de ‘Feminismo Matricêntrico’. Mas expliquei pouco esse último. O termo foi cunhado por Andrea O’Reilly, a pesquisadora canadense que há décadas batalha por uma teoria, um ativismo e uma prática próprias para as mães dentro do feminismo. É a minha nova musa.

O Feminismo Matricêntrico entende que maternar é central na vida das mulheres, mas não sugere e nem defende que a maternidade é tudo o que importa nessa vida ou que isso importa acima de tudo. Nós, mães, somos moldadas em definitivo pela maternidade, mas não somos apenas mães.

O’Reilly sugere um feminismo que coloque a maternidade no centro. Para a pesquisadora (e tô aqui gritando de concordância), o feminismo vem ignorando a maternidade nos últimos 40 anos e as mulheres mães continuam oprimidas duplamente: porque são mulheres e porque são mães. E isso sem contar as demais camadas que fazem intersecções de opressão: de classe, de raça, de orientação sexual, de idade, etc.

Veja bem, ela não quer substituir o feminismo pelo feminismo matricêntrico. Quer apenas enfatizar que a categoria das mães difere da categoria ‘mulher’ e que muitos dos problemas que as mães sofrem – sociais, econômicos, políticos, culturais, psicológicos e etc – são específicos dos papéis e da identidade que elas desempenham por serem mães. Entendo que seria uma outra vertente feminista.

Mas afinal do que ele trata e o que propõe? No artigo ‘The baby out with the bathwater:the disavowal and disappearance of motherhood in 20th and 21st century academic feminism’ (em livre tradução: ‘Jogar o bebê fora junto com a água do banho: a recusa e o desaparecimento da maternidade no feminismo acadêmico dos séculos XX e XXI’) Andrea O’Reilly articula sete itens de uma lista que considera parcial e provisória para compor o Feminismo Matricêntrico. Traduzi e adaptei livremente aqui pra espalhar essas palavras também em português:

O ‘Feminismo Matricêntrico’…

1) afirma que o tema das mães, da maternagem e da maternidade é merecedor de sérias e consistentes investigações acadêmicas (ela tem uma pesquisa mostrando como a temática da maternidade é ausente também no ambiente acadêmico dentro dos estudos feministas e de gênero no Canadá, mas arrisco dizer que não é exclusividade de lá);

2) Considera a maternidade como um trabalho que é importante e valioso para a sociedade, mas enfatiza que a tarefa essencial da maternidade não é, e não deveria ser, a única responsabilidade e dever das mães;

3) Contesta, desafia e sinaliza a instituição opressiva da maternidade patriarcal e busca imaginar e criar uma prática e uma identidade para a maternidade que empodere as mães;

4) Foca em corrigir a centralização da criança que define muito dos estudos acadêmicos e do ativismo sobre a maternidade e busca desenvolver pesquisa e ativismo a partir da experiência e da perspectiva das mães (AMO!);

5) Compromete-se com a mudança e a justiça social e considera a maternidade como uma empreitada de engajamento social com seu próprio lugar de poder, em que as mães podem e realmente criam uma mudança social através da criação de filhos e de seu ativismo;

6) Compreende que a maternidade e a maternagem são culturalmente determinadas e variáveis, e se compromete em explorar as diversas experiências existentes de forma interseccional, de acordo com raça, classe, cultura, etnia, orientação sexual, capacidade física, idade e localização geográfica;

7) Se esforça para estabelecer uma teoria materna e estudos sobre a maternidade como uma disciplina autônoma, independente e legítima de disciplinas acadêmicas.

Enfim, o Feminismo Matricêntrico é a vertente que faltava na minha vida de mãe feminista. Para quem se interessar mais, Andrea O’Reilly tem um livro a respeito, lançado em 2016: Matricentric Feminism – Theory Activism and Practice.

*Imagem tirada do Militância Materna, que recomendo bastante!

4 comentários sobre “O que é Feminismo Matricêntrico?”

  1. Concordo que o feminismo dá pouca atençâo à maternidade. Interessante esta vertente. Soh fico preocupada com os muitos desdobramentos e segmentações. Daqui a pouco perderemos a coesão.

    1. Oi, Leilane, a gente vai ter que achar coesão na diversidade. Ganhamos mais força entendendo as diferenças entre as mulheres. Acho complexo, mas necessário mesmo.

  2. Excelente texto. Nunca havia me atentado pra essa questão. Há um momento na maternidade em que a mulher praticamente se anula como pessoa e atua somente naquela posição de mãe. Passei por isso quando meus filhos eram menores por muitos anos. Acho que trazer esse tema à consciência já provoca uma mudança e busca por alternativas.

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