Maternidade patriarcal e feminismo matricêntrico

Por Renata Senlle

Eu acredito, por experiência própria, que a maternidade pode ser libertadora dos conceitos patriarcais. Não por que seja livre dele, mas justamente porque a partir da maternidade é possível entender como ela é peça principal dessa engrenagem machista, com um modo próprio e bem definido de opressão que detalha como devemos ser, agir e pensar. Nasce uma mãe e nasce toda uma série de demandas e exigências infinitas, impossíveis de serem alcançadas.

Essa é a Maternidade Patriarcal que, por ser absoluta e sutilmente violenta, pode nos empurrar à força rumo ao feminismo. Muitas mulheres que conheço entenderam a urgência do feminismo depois de terem filhos, porque toda a sorte de desigualdades se escancara até entre as mais privilegiadas.

Levei esse interesse para minha pesquisa de mestrado e conheci o trabalho de uma pesquisadora da maternidade, a Andrea O’Reilly, da Universidade de York, em Toronto (Canadá), por meio de um artigo traduzido pela doutora em comunicação e semiótica da PUC-SP, Maria Collier de Mendonça.

O’Reilly listou 10 pressupostos ideológicos da Maternidade Patriarcal:

1.Essencialização, ou seja: a mulher é fundamentalmente mãe.

2.Privatização: que faz do maternar exclusividade da vida privada, doméstica.

3.Individualização: como se maternidade fosse trabalho de uma única pessoa, centralmente a mãe.

4.Naturalização: infere que a maternidade é natural e que já nascemos sabendo como maternar e que não é preciso desenvolver inteligência ou habilidade e qualificação.

5.Normalização: limita o modelo às famílias nucleares heteronormativas na qual a mãe e esposa é a principal cuidadora. 6.Biologização: posiciona a mãe biológica como a autêntica e a real.

7 e 8.Especialização e Intensificação: defende que a prática de maternar seja guiada por especialistas, com demandas extenuantes em termos de energia, dinheiro e esforço maternos muito intensos.

9.Idealização: estabelece modelos inatingíveis que reforçam as expectativas e cobranças das mães sobre si mesmas e da sociedade sobre as mães.

10.Despolitização da Maternidade: isola a criação e educação dos filhos como atividades privadas, como se não tivesse relação e/ou implicações sociopolíticas.

Esses 10 tópicos seriam a estrutura que mantém a maternidade como uma instituição patriarcal. Quem se identifica?

Mas como foram construídos, podem ser desconstruídos. E, para serem desconstruídos, requerem um feminismo próprio, que O’Reilly descreve como Feminismo Matricêntrico para tratar das nossas questões de mãe com a relevância, a visibilidade, a seriedade e a urgência que elas têm.

13 comentários sobre “Maternidade patriarcal e feminismo matricêntrico”

  1. Excelente texto!! Ultimamente ando me incomodando demais com a minimização ou até ridicularização do papel de mãe. Vai além do “você é SÓ mãe?”. Não se pode lamentar pq entendem como se não amasse os próprios filhos, mas também não pode se orgulhar e querer tomar pra si que você vira alguém sem ambição, quase deprimida aos olhos dos outros.
    Exigem que retornemos ao mercado de trabalho e nossos antigos sonhos, como se não tivéssemos milhões de novas preocupações e atribulações no dia a dia.
    Todas as mães dão conta da rotina, criar filhos não é trabalho, é prazer. Ter filhos não é política, não é luta, não é luto e transformação, se é você é “pequenininha” ao lados dos grandes amigos empreendedores do mercado de trabalho usual.
    Maternidade boa é aquela calada, recatada e no lar… sem voz e sem ativismo. Não à toa estamos todas afogadas na nossa rotina, gritando por nossos direitos, desejos e vontades e incansavelmente caladas por todos que nos minimizam e menosprezam e grande e interminável trabalho de ser mãe!!!
    E eu amo sim a maternidade, só não amo como passei a ser vista pela sociedade e todos que me cercam, inclusive meu marido.

    1. Faço das suas palavras, as minhas!🤦🏻‍♀️🙌🏻😉
      Você não está só, infelizmente me sinto assim também!

    2. Nossa muito bom o texto! Me identifico, é ainda com o agrave de que mru marido me largou com a minha filhota com 10 meses… simplesmente disse que a vida é uma só e wue nao estava feliz… ele nuna me ajudou e dizia wue se eu wueria ser mae que fazer tudo era meu papel… eu fiwuei com muito medo da responsabilidade de cuidar e criar eka sozinha, mas na realidade eu já estava fazendo rudo sozinha e agora estou melhor pq nao tenho wue fazer jantar para um homem bossal como ele, quem nem as contas pagava…

    3. Pois é!
      Semana passada mesmo ouvi de um colega de trabalho “meu avó tinha oito filhos e só ele trabalhava (enquanto a esposa cuidava dos filhos), então imagina como era difícil pra ele, né?”
      Aí minha cabeça ficou meio tela azul do tipo: difícil “pra ELE??”

      1. exato! o trabalho das mães é invisível, não remunerado, não valorizado, não glamourizado e sustenta o mundo!

  2. Eu me identifico, só faltou o fato da mae deixar de ser mulher por ser mãe. No meu caso que sou mãe solo isso fica bem claro com relação ao pai da minha mais nova. Ele acredita que não posso ter uma vida de mulher porque ainda estou amamentando. Nem que é justo ele cuidar da criança para eu ter um lazer. Sair a noite por exemplo.

    1. Isso acontece tb com quem está numa relação. Meu marido não percebe que eu não tive lazer nenhum ainda desde o nascimento do meu filho. E ele fica bravo de eu perguntar onde ele está após 5h pulando carnaval

  3. Nem sei dizer o quanto eu me vejo nessas questões levantadas. Mas sei dizer que sim, a saída da Matrix e o feminismo, também minha indentificação racial só veio para mim depois dos meus filhos. A parte mais difícil da violência é qndo vc se vê dentro dela.

  4. Olá Renata, que texto sensacional. Tem como disponibilizar sua pesquisa. Tenho muito interesse em ler.

    Obrigada

    1. Obrigada, Camila. Ainda estou escrevendo, muito no inicio, mas compartilharei aqui na Conexão Feminista tudo que for descobrindo pelo caminho! 😉

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