Maternidade e Vida Acadêmica – Parte II

Por Renata Senlle

No primeiro post desse tema escrevi a respeito das iniciativas para equilibrar maternidade e vida acadêmica. Neste post, vou falar mais da vida prática.

Conciliar esses dois lugares é puxado. Essa semana participei de uma banca de conclusão de curso e tive que levar meu filho junto pelas diversas impossibilidades logísticas das vida (quem ficaria, distância para buscá-lo depois, horário de jantar, etc). Eu me peguei tensa. Porque filho abre uma janela de preocupação e cuidado que passa na frente de muitos outros âmbitos da minha vida. Prestar atenção em apresentação acadêmica com filho na plateia requer uma combinação de disposição individual e acolhimento estrutural. Acredito que todos os pais que estão com crianças em ambientes silenciosos ficam tensos. Mesmo quando você é acolhida, como foi meu caso. Eu preferiria estar focada ali apenas na parte acadêmica, sem aquela “janela” de atenção constante que não fecha, mesmo com filho tranquilo e capaz de se entreter sozinho, como é o meu. Ainda assim, eu estava mais tranquila do que se não tivesse aproveitado aquela oportunidade. E foi isso que me fez ir.

Foi a primeira vez que o levei (vale ressaltar que ele tem 8 anos e é bem mais difícil quanto menor a criança). E me senti no dever de avisar para a professora que me convidou a participar que eu iria leva-lo. Ou seja, eu parti do princípio que aquele não era o lugar adequado e que eu precisaria me justificar. Fiquei me perguntando se eu teria a mesma reação com um professor homem. Não sei responder, mas imagino que ficaria ainda mais tensa.

Fui ouvir novamente esse episódio do Gizcast, que fala da conciliação com a maternidade. A entrevistada foi a professora Miriam Hermeto, da UFMG, pela mestranda e podcaster, Maria Visconti, do Lugar de Mulher. Algumas falas dela ficaram pipocando na minha cabeça:

– “Para quem está em dúvidas do melhor momento de ter filhos, em razão de conseguir se dedicar à vida acadêmica, fica um recado: filho faz parte da vida da gente e a gente encaixa”. A questão é: os homens não precisam se preocupar com isso enquanto for “função de mulher”.

– “A maternidade não deve ser um obstáculo à vida acadêmica a ponto de a gente ter medo de contar para os orientadores que estamos grávidas”. Ou de não levar os filhos em eventos acadêmicos, como foi meu caso.

– “Deveríamos ter mais prazo para entrega dos trabalhos em caso de licença maternidade”. Levando em conta que as funções de filho ainda são majoritariamente da mulher, essa poderia ser uma forma de incluir e acolher mais as mulheres mães e incentivar a produção acadêmica.

– ‘Maternidade é ausência de controle e tolerância a imprevistos’. O oposto da academia, certo?

– “A vida acadêmica é estruturada para trabalho constante. Além da sala de aula, o tempo de pesquisa em casa e em horários não regulares são frequentes. E falar de maternidade nesse ambiente coloca essa lógica em xeque”. Concordo profundamente. Não à toa só pude me dedicar a academia quando me separei e tive dias “livres” de função com filho.

– Para dar conta da vida acadêmica e da maternidade, não podemos depender de soluções individuais ou privadas (como babás, creches terceirizadas, família), que operam uma lógica de privilegiar quem tem mais dinheiro e tornar a academia uma barreira para muitas mulheres que acumulam outras opressões, como ser mães solo, ser uma mulher negra, morar nas periferias, etc…

– “Algumas dificuldades de uma vida acadêmica fluida para as mulheres são bem particulares, como: dificuldade de tempo para escrever, mobilidade, instituições não preparadas para lidar com o assunto e ambiente muito masculino”.

– “Também é nosso dever questionar essa lógica, por exemplo, levando crianças para o espaço acadêmico quando necessário.”

Num mundo machista em que ter filhos acaba sendo responsabilidade das mães, os lugares que não acolhem crianças, também não acolhem as mulheres. O feminismo luta pelo direito de não ter filhos, mas vejo pouco a luta pelo direito a ter filhos com dignidade e apoio, também subvertendo a lógica patriarcal que apresenta a maternidade como uma instituição que tem mecanismos sutis de encerrar mulheres e crianças dentro de casa.

PS: A imagem é desse post com o relato de uma mulher falando das dificuldades de conciliar vida acadêmica e maternidade!

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