Maternidade compulsória #03: ‘e se você se arrepender?’

Por Helô Righetto

Esse é o terceiro post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Você já experimentou fazer essa pergunta para uma mãe? Óbvio que não (e não acho que deve ser feita em hipótese alguma). Então por que perguntar para alguém que não quer ter filhos sobre um possível futuro arrependimento?

É fato: todas nós vamos nos arrepender de alguma coisa nessa vida. Não dá pra gente acordar de manhã e fazer nossas escolhas rotineiras pensando que talvez, quem sabe, nos arrependeremos no futuro. A gente muda, o mudo muda (ainda bem), e arrependimentos acontecem. Viver pensando em evitar arrependimentos é desrespeitar quem é você HOJE.

Se uma mulher se arrepender de não ter tido filhos, o problema não é seu. Respondo por mim: sim, não há garantias que eu não me arrependa, e não sei o que vai acontecer se eu acordar um dia e achar que deveria ter tido filhos. Mas o que posso te dizer é que minha decisão hoje é embasada em muito auto-conhecimento. São anos me questionando, observando a maternidade ao meu redor. São anos pensando ‘será que há algo de errado comigo?’ por não querer ter uma criança. Se até hoje eu consegui seguir firme nessa decisão, posso ter a tranquilidade de que a eu do futuro vai lidar com uma possível (porém improvável) frustração conhecendo a eu do passado. E a possível arrependida eu do futuro não se esquecerá de seus questionamentos internos e da vontade enorme de viver sem filhos do passado.

E, como falo desde o começo dessa série, não ter filhos não significa virar as costas para a continuação da humanidade. Eu sei que sou parte ativa da sociedade e que cabe a mim participar na criação de filhas e filhos de pessoas do meu entorno. Eu quero que minha existência deixe marcas, deixe legado, e minha preocupação com o futuro é tão válida quanto a preocupação de quem tem filhos. Minha luta feminista é a longo prazo, e não será encerrada no momento que minha vida acabar: ela continuará através das crianças geradas e criadas pelas minhas pares.

A possível-porém-improvável-não-mãe-arrependida sabe que feminismo é uma via de duas mãos: poderei contar com as minhas pares para dividir com elas as delícias e dores da maternidade.

12 comentários sobre “Maternidade compulsória #03: ‘e se você se arrepender?’”

  1. Vou relatar uma cena insólita: eu, com uma das minhas cachorras no colo, fazendo carinho e conversando com ela. Uma pessoa me diz: para com isso e arruma uma criança pra vc cuidar. É… não é fácil simplesmente ser e fazer o que se quer.

  2. Ai Helo, voce eh um ser humano bem melhor que eu. Eu pergunto sim para as maes se elas nao tem medo de se arrepender de terem tido filhos. Mas so pergunto quando elas me perguntam se nao vou me arrepender de nao te-los. Faco a pergunta ‘mal criada’ de volta nao somente para expressar minha insatisfacao, mas tambem porque acho que a pergunta gera um sentimento de invasao… fico na esperanca de que a pessoa reflita sobre quao infundada a pergunta eh para ambos os lados.

    1. Mi, eu entendo totalmente essa tatica – e se serve para alguem repensar o que fala, talvez eu precise mudar o que penso sobre a pergunta!

  3. Nunca comentei aqui, mas hj senti vontade de dizer que adoro vocês e as discussões que vcs trazem fazem mta diferença na minha vida. Sigam em frente, Contem comigo. Contem conosco. Um beijo na Helo e um beijo na Renata.

  4. Eu, particularmente, acho que essa pergunta (vc se arrependeu de ter filho(s)?) deve ser estimulada para quem teve filho(s). Não precisa ter uma resposta, mas faz parte de um autoconhecimento frente à maternidade. Dá uma certa liberdade poder falar/pensar sobre isso alto ou em silêncio. Eu, como psicóloga e mãe, já ouvi muita mulher dizendo que se arrepende mas que ama o filho, que se arrepende em parte e também ouvi gente que não se arrepende, sendo que boa parte das que não se arrependem mostram incômodo ou sequer entendem a pergunta. Por outro lado, já ouvi muitas mulheres extremamente aliviadas em poder falar sobre seus arrependimentos, lamentos, transformações impostas pela maternidade.

  5. Ola, eu cresci meio que não querendo ter filhos pq não queria dar aquilo que recebi de meus pais, e como vc sempre acaba sendo aquilo que aprendeu, meu medo era não conseguir ser melhor para meus futuros filhos e assim cultivei sempre a ideia de que não gostaria de ser mãe.
    Até que tive um relacionamento com uma pessoa ótima em que me fez repensar em que talvez ele pelas atitudes daria um maravilhoso pai e assim seriamos uma bela família pq eu teria o apoio de um super pai, porem o relacionamento acabou e me relaciono desde 2010 com uma pessoa que já possui uma filha, e em dez de 2017 eu engravidei, no panico do momento decidi por dar fim e na cirurgia fazer uma laqueadura. Hoje 2019 eu só consigo ver que falhei, falhei por nao ter tido coragem e hoje sinto que estou vivendo e não deixarei nenhum legado, e assim não tenho vontade mais de construir.
    Gostaria de mudar esse pensamento, mas por enquanto é isso.

    1. Emy, toda minha solidariedade a voce. E sei sim que mudar de pensamento eh dificil e nao adianta muito o que vou falar. Mas nosso legado vale mesmo quando os filhos nao sao nossos. A gente influencia todos e todas a nossa redor, e cabe a gente estender a mao e oferecer nosso conhecimento, tempo e disponibilidade para quem tem filhos. Fazemos parte da educacao dessas criancas. Nao como maes e pais, claro, mas como agentes de mudanca. Pensa que tudo que vc faz hoje pode ajudar alguem amanha, sendo ou nao seu filho. Se quiser conversar mais, me manda um email!

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