Maternidade compulsória #01: ‘mas quem vai cuidar de você na velhice?’

Por Helô Righetto

Quem acompanha nosso trabalho na Conexão Feminista sabe que maternidade é um tema constante nas nossas plataformas. Temos inclusive uma playlist no canal dedicada ao tema. Mas a gente não acha que maternidade é só sobre ter filhos. Pode parecer estranho, mas é sobre não tê-los também. Nossa sociedade reverencia a maternidade e julga que a mulher só cumpre seu papel quando vira mãe. Porém, a mesma sociedade vira as costas para mães, as excluindo de lugares públicos e instituições: política, trabalho, lazer. Tratamos as mães como meros ‘espaços’ a serem preenchidos por bebês: no momento que anunciam a gravidez, são ‘anuladas’ e tornam-se propriedade pública. São invisibilizadas, diminuídas e desrespeitadas.

Às mulheres que decidem por não ter filhos, são destinadas as perguntas e comentários bizarros. Os olhares tortos, o interesse desconcertante e desrespeitoso em nossas relações – com parceiros/parceiras, pais, mães, sobrinhos – como se algo estivesse errado. Como se nossas vidas não tivessem sentido. Afinal o que farão essas mulheres já que não se ocuparão de crianças?

Essa nova série de textos – esse é o primeiro de muitos! – é baseada na experiência de 30 mulheres que toparam nos contar as coisas absurdas que já escutaram simplesmente porque não desejam ter filhos. Fizemos uma compilação de frases – o que deu origem a nuvem de palavras que ilustra esse texto – e as que mais se repetiram foram escolhidas para serem rebatidas aqui. O título ‘maternidade compulsória’ foi escolhido pois representa a construção social e a romantização da maternidade. Por ser algo entendido como obrigatório na vida de mulher, quando não é realizada acaba gerando o estranhamento já falado anteriormente. Pode parecer estranho a gente usar a palavra maternidade em uma série de textos que justamente fala sobre não ter filhos. Mas como falei no primeiro parágrafo, maternidade é algo holístico – ser ou não mãe e saber que seu corpo é político com ou sem filhos, é essencial para que a gente se entenda como coletivo.

Feita a introdução da série, vamos ao comentário absurdo mais comum já ouvido pelas mulheres que não desejam ser mães: mas quem vai cuidar de você na velhice?

Essa frase foi escolhida como a primeira a ser dissecada porque foi a mais comum entre todas as participantes. A preocupação com o nosso futuro pode até ser bem intencionada, mas revela que a sociedade enxerga os filhos como propriedade dos pais, colocando nas costas deles uma pressão imensa mesmo antes de nascerem. É justo a gente exigir que filhos cuidem dos pais, principalmente nessa sociedade capitalista onde a maioria das pessoas trabalha pra sobreviver? Será que essa visão de ter filhos para garantir uma velhice supervisionada não está romantizada? Uma visão bastante privilegiada, pois você assume que, se seus filhos não puderem cuidar de você, pagarão alguém para fazê-lo. E dá pra garantir esse alívio financeiro? E se seus filhos tiverem seus próprios filhos pra cuidar? Essa é uma visão também capacitista: se o filho não puder fisicamente ou mentalmente cuidar de seus pais, quer dizer que colocá-lo no mundo não valeu a pena?

E quem garante a boa relação entre pais e filhos? De novo, essa visão romantizada da maternidade perfeita, da família perfeita.

Uma pessoa que não tem filhos não é necessariamente uma pessoa solitária. É possível ter uma velhice feliz e saudável, com ou sem filhos. Mais estranho do que perguntar para uma mulher quem vai cuidar dela na velhice é achar que toda pessoa precisa de cuidados o tempo todo (olha o etarismo aí, gente!!!). Pessoas velhas não são pessoas inválidas, e muitas tem os melhores anos de sua vida justamente porque os filhos são independentes.

Boas relações familiares não são necessariamente baseadas em cuidado intenso. E cuidado não precisa (nem deve) ser algo exclusivo dos familiares.

5 comentários sobre “Maternidade compulsória #01: ‘mas quem vai cuidar de você na velhice?’”

  1. Oi. Lindo. Amei. E tem outra questão: isso é mercantilização dos filhos, porque eles não valem por si mas pelo seu valor futuro. E essa visão é triste ao negar a humanidade

  2. Que série maravilhosa de textos sobre o tema. Muito bom que, por mais que eu leia ainda sobre esse assunto que me interessa tanto pois não quero ter filhos, vcs do Conexão sempre abordam de uma maneira muito clara de ler e acrescentando pontos que talvez não tenha pensado ou lido antes. Vou acompanhar a serie com cem certeza!

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