Conexão Feminista

Machismo, literalmente

A linguagem é uma das ferramentas mais poderosas de qualquer país ou cultura. A maneira como falamos e escrevemos é carregada de mensagens que refletem nossos valores (por mais enrustidos que sejam). Acho que vocês já sabem onde quero chegar: mostrar que a linguagem – mais precisamente a língua portuguesa, já que é meu idioma natal e o que uso no meu dia a dia – é carregada de machismo e misoginia. O gênero masculino é o dominante no plural, essa é uma das primeiras coisas que aprendemos quando somos alfabetizados. Se existem 10 pessoas em uma sala e apenas uma dessas é pessoas é homem, é o suficiente para que o grupo seja tratado como “todos” em vez de “todas”, por exemplo. Recentemente, e principalmente nas redes sociais, a vogal “a” ou “o” passou a ser substituída pelo “x”, com o objetivo de neutralizar abordagens binárias e sexistas. Por mais inofensivo que pareça (já visualizo olhares de reprovação e comentários do tipo “ah mas essas feministas agora implicam até com a gramática?”), a masculinização das palavras no plural nos mostra que ser homem é a norma, é o que rege, é o correto. Em tempo: usar a letra “x” no lugar de “a” ou “o” tem seus problemas, principalmente no que se refere a acessibilidade. Softwares que lêem para pessoas com defici6encia visual não conseguem fazer essa pronúncia, por exemplo. Mas além das regras gramaticais, muito mais difíceis de serem percebidas como símbolos de machismo, as expressões que usamos de forma rotineira escancaram valores patriarcais. Eu sei que não preciso explicar o significado de nenhuma das expressões a seguir: “botar o pau na mesa”, “ter culhões”, “seja homem” são tão presentes no nosso dia a dia que falamos sem nunca pararmos por alguns segundos para escutar todo o machismo enraizado. É muito falocentrismo para um idioma só. São expressões que conotam poder, dominação e violência, utilizadas tanto para (e por) homens como mulheres. Já no caso de “mulherzinha” ou “correr como uma garota” (Você pode substiuir o “correr” por qualquer outra ação, como “jogar”, “lutar”, “chorar”), ou qualquer expressão que de alguma forma tenha ligação com a mulher ou feminilidade, tem conotação negativa: fraqueza, fragilidade, submissão. Essa percepção é perturbadora, e continuar utilizando esses termos é perpetuar esse assombroso abismo tão benéfico para a sociedade patriarcal. Não é “só uma expressão”, já que nenhum machismo é isolado. Linguagem machista, piadas machistas, cantadas constrangedoras e tantas outras ações que sozinhas parecem inocentes, fazem parte de um mecanismo complexo, que sustenta cultura de estupro, violência de gênero e tradições anacrônicas. Tão ou mais corriqueiros e misóginos do que as expressões citadas acima são os os xingamentos (aviso de gatilho: terei que escrevê-los). Já repararam que as ofensas dirigidas para mulheres tem um significado completamente diferente das que são dirigidas para os homens? Puta, vagabunda, vadia e afins, palavras com forte conotação (negativa) sexual são consideradas algumas das mais fortes quando o alvo é uma mulher. Bicha, veado, e qualquer outra palavra que questione a heterossexualidade masculina são as expressões mais utilizadas para ofender um homem. Ou seja, para xingarmos um homem, questionamos sua preferência sexual (o que é altamente homofóbico), ridicularizamos e afeminamos sua masculinidade. Para xingarmos uma mulher, questionamos sua condição imposta de “bela, recatada e dor lar”. Mulher promíscua não é mulher que mereça respeito, não é mesmo? A mulher é xingada até mesmo quando não é participante da discussão: filho da puta. Corno. Exemplos corriqueiros, mas que claramente mostram a culpa que a mulher carrega mesmo quando nada tem a ver com a situação. Erradicar a linguagem machista, admito, é um passo difícil. É um daqueles momentos que temos um espelho colocado a nossa frente, apontando todos os nossos preconceitos e hipocrisias. Nos descobrirmos feministas não parecia assim tão complicado. É muito mais fácil seguir escolhendo quais ítens da listinha de tarefas feministas adaptam-se ao nosso estilo de vida. Mas não é o feminismo que deve se adaptar ao nosso dia a dia, a nossa cultura. A transformação é trabalhosa.

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