A humanidade das feministas

Por Helô Righetto

Mary Wollstonecraft, autora de ‘Reinvindicação dos Direitos da Mulher’ – livro/manifesto publicado em 1792 considerado precursor do feminismo moderno – além de filósofa e defensora dos direitos, tentou suicídio por duas vezes, ambas por causa de um relacionamento abusivo com o pai de sua primeira filha, Fanny. Geralmente, quando falo com alguém sobre Mary Wollstonecraft e comento sobre esses dois atentados, a reação da minha interlocutora é de surpresa carregada de decepção. A mãe do feminismo tentou se suicidar por causa de um homem?

Eu entendo o ‘susto’ e a ‘decepção’. Nós esperamos que mulheres, principalmente as pioneiras, revolucionárias que deixaram sua marca na história, sejam um exemplo de vida bem resolvida, de perfeição, de modelo para as mulheres a seguir. Elas servem meio que como uma prova – estejam vivam ou mortas – de que mulheres não desistem nunca, superam toda e qualquer adversidade com destreza e sem qualquer deslize emocional.

Esses dias recebi uma mensagem privada de uma seguidora no Instagram. Era uma imagem, de uma mulher adulta de mãos dadas com uma menina, ambas de costas, caminhando. A menina pergunta: ‘mamãe, o que é desistir?’, e a mulher responde: ‘não sei filha, somos mulheres, não desistimos nunca’. Expliquei para a pessoa que me mandou a mensagem que, apesar da boa intenção, ela perpetua essa mesma ideia, esse mesmo modelo de perfeição feminina que mencionei acima.

Mulheres que exercitam feminismo, sejam militantes, líderes de comunidade, comunicadoras (como nós) ou políticas acabam sentindo isso na pele. E é preciso ressaltar que, com ou sem luta, somos todas humanas. Somos carregadas de conflitos, de emoções, de experiências de vida que correm em paralelo com as nossas lutas feministas. Estar ciente da importância do feminismo e tentar viver a vida através das lentes feministas não nos livra de machismo. Não nos livra da possibilidade de sermos vítimas de abuso ou assédio ou qualquer tipo de preconceito baseado em gênero. Feminismo, afinal, não é um remédio que cura problemas individuais, e sim a busca pelo bem coletivo, pelo fim da opressão.

O que uma mulher feminista faz ou deixa de fazer em sua vida pessoal não desmerece sua luta pública, política e coletiva. O exemplo tem que ser dado pela sociedade, a qual precisa se reestruturar e acolher ideias progressistas. Colocar feministas ativistas em um pedestal de perfeição feminino é colocar nos ombros de mulheres a responsabilidade de uma luta que é de todos nós.

Se você quer saber mais sobre Mary Wollstonecraft, assista o vídeo abaixo:



Mary Wollstonecraft Imagem via http://www.giuliavetri.com/Mary-Wollstonecraft