Maternidade e Vida Acadêmica – Parte II

Por Renata Senlle

No primeiro post desse tema escrevi a respeito das iniciativas para equilibrar maternidade e vida acadêmica. Neste post, vou falar mais da vida prática.

Conciliar esses dois lugares é puxado. Essa semana participei de uma banca de conclusão de curso e tive que levar meu filho junto pelas diversas impossibilidades logísticas das vida (quem ficaria, distância para buscá-lo depois, horário de jantar, etc). Eu me peguei tensa. Porque filho abre uma janela de preocupação e cuidado que passa na frente de muitos outros âmbitos da minha vida. Prestar atenção em apresentação acadêmica com filho na plateia requer uma combinação de disposição individual e acolhimento estrutural. Acredito que todos os pais que estão com crianças em ambientes silenciosos ficam tensos. Mesmo quando você é acolhida, como foi meu caso. Eu preferiria estar focada ali apenas na parte acadêmica, sem aquela “janela” de atenção constante que não fecha, mesmo com filho tranquilo e capaz de se entreter sozinho, como é o meu. Ainda assim, eu estava mais tranquila do que se não tivesse aproveitado aquela oportunidade. E foi isso que me fez ir.

Foi a primeira vez que o levei (vale ressaltar que ele tem 8 anos e é bem mais difícil quanto menor a criança). E me senti no dever de avisar para a professora que me convidou a participar que eu iria leva-lo. Ou seja, eu parti do princípio que aquele não era o lugar adequado e que eu precisaria me justificar. Fiquei me perguntando se eu teria a mesma reação com um professor homem. Não sei responder, mas imagino que ficaria ainda mais tensa.

Fui ouvir novamente esse episódio do Gizcast, que fala da conciliação com a maternidade. A entrevistada foi a professora Miriam Hermeto, da UFMG, pela mestranda e podcaster, Maria Visconti, do Lugar de Mulher. Algumas falas dela ficaram pipocando na minha cabeça:

– “Para quem está em dúvidas do melhor momento de ter filhos, em razão de conseguir se dedicar à vida acadêmica, fica um recado: filho faz parte da vida da gente e a gente encaixa”. A questão é: os homens não precisam se preocupar com isso enquanto for “função de mulher”.

– “A maternidade não deve ser um obstáculo à vida acadêmica a ponto de a gente ter medo de contar para os orientadores que estamos grávidas”. Ou de não levar os filhos em eventos acadêmicos, como foi meu caso.

– “Deveríamos ter mais prazo para entrega dos trabalhos em caso de licença maternidade”. Levando em conta que as funções de filho ainda são majoritariamente da mulher, essa poderia ser uma forma de incluir e acolher mais as mulheres mães e incentivar a produção acadêmica.

– ‘Maternidade é ausência de controle e tolerância a imprevistos’. O oposto da academia, certo?

– “A vida acadêmica é estruturada para trabalho constante. Além da sala de aula, o tempo de pesquisa em casa e em horários não regulares são frequentes. E falar de maternidade nesse ambiente coloca essa lógica em xeque”. Concordo profundamente. Não à toa só pude me dedicar a academia quando me separei e tive dias “livres” de função com filho.

– Para dar conta da vida acadêmica e da maternidade, não podemos depender de soluções individuais ou privadas (como babás, creches terceirizadas, família), que operam uma lógica de privilegiar quem tem mais dinheiro e tornar a academia uma barreira para muitas mulheres que acumulam outras opressões, como ser mães solo, ser uma mulher negra, morar nas periferias, etc…

– “Algumas dificuldades de uma vida acadêmica fluida para as mulheres são bem particulares, como: dificuldade de tempo para escrever, mobilidade, instituições não preparadas para lidar com o assunto e ambiente muito masculino”.

– “Também é nosso dever questionar essa lógica, por exemplo, levando crianças para o espaço acadêmico quando necessário.”

Num mundo machista em que ter filhos acaba sendo responsabilidade das mães, os lugares que não acolhem crianças, também não acolhem as mulheres. O feminismo luta pelo direito de não ter filhos, mas vejo pouco a luta pelo direito a ter filhos com dignidade e apoio, também subvertendo a lógica patriarcal que apresenta a maternidade como uma instituição que tem mecanismos sutis de encerrar mulheres e crianças dentro de casa.

PS: A imagem é desse post com o relato de uma mulher falando das dificuldades de conciliar vida acadêmica e maternidade!

Maternidade e Vida Acadêmica – Parte I

Por Renata Senlle

Já disse e escrevi algumas vezes que a maternidade foi uma das portas pela qual entrei de vez no feminismo. Foi, pra mim a condição mais gritante em que as desigualdades entre homens e mulheres ficaram ainda mais evidentes em todos os âmbitos da vida. E o fato de o feminismo só ter se escancarado pra mim nessa etapa da vida, sinaliza meus tantos privilégios de mulher branca, classe média, cis gênero e heterossexual. Desse lugar no feminismo, encontrei bastante informação e discussão a respeito das relações entre maternidade e carreira, maternidade e relações afetivas, maternidade e espaço público, mas pouco de maternidade e vida acadêmica.

Adiciono aos meus privilégios o acesso a um mestrado em uma universidade pública. E nesse espaço estão rolando uma série de movimentos para tirar a maternidade de dentro das casas e da responsabilidade única e exclusiva das mães para que elas possam estudar. São debates e iniciativas que começam a escancarar as diversas dificuldades e sobrecargas que recaem sobre as mulheres mães que também querem, podem e devem se dedicar à vida acadêmica. Eu mesma, só consegui me dedicar a isso depois que me separei. Com guarda compartilhada real, consegui ter um tempo sem criança para estudar.

Algumas iniciativas vêm contribuindo pra isso, como Parent in Science, que apesar do nome em inglês, é um movimento organizado por um grupo de pesquisadoras brasileiras. O intuito é levantar a discussão sobre a maternidade (e paternidade!) para dentro do universo da ciência do Brasil. A discussão começou para dar conta da ausência de dados e de conhecimento sobre uma questão fundamental: o impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e homens.

Além de realizar seminários em diversas universidades brasileiras, o grupo realiza um levantamento entre as cientistas com e sem filhos, para entender as consequências da chegada dos filhos na carreira científica de mulheres e homens, em diferentes etapas da vida acadêmica.

Para começar a sinalizar e conscientizar para os impactos da maternidade entre a produtividade das pesquisadoras, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou em março deste ano a inclusão de uma aba com os períodos de licença maternidade e paternidade no currículo Lattes, depois de um pedido assinado por cientistas mulheres. O Lattes é a principal plataforma para inclusão de publicações e desenvolvimento de pesquisa no país.

As relações entre maternidade e vida acadêmica também foram o tema de uma mesa realizada durante o 1º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG, em 2018. Pesquisadoras trocaram experiências e reflexões de como superar obstáculos, contribuindo para que homens e mulheres tenham, de fato, oportunidades iguais no universo da ciência.

E a Universidade Federal Fluminense (UFF) publicou um edital no início de 2019 que inclui um mecanismo inédito para equilibrar a concorrência de homens e mulheres na disputa por bolsas de iniciação científica. No concurso, as professoras que tiveram filhos nos últimos dois anos podem ter acréscimo de cinco pontos — caso não atinjam a pontuação máxima — como forma de compensar o tempo de licença-maternidade em que não produziram trabalhos acadêmicos, um dos critérios para a escolha dos bolsistas.

A reivindicação pelos direitos das mulheres aos estudos é pauta da primeira onda feminista, bem exemplificada pela escritora inglesa Mary Wallstonecraft no livro: Reivindicação dos Direitos das Mulheres de 1792 (temos dois hangouts sobre ela, aqui e aqui). O pleno acesso das mulheres à academia é a radicalização desse demanda. E a maternidade, construída socialmente como atribuição majoritariamente feminina, trazendo uma tripla jornada repleta de trabalho invisível que te dizem que você deve fazer por amor, ainda se transforma numa enorme barreira em diversos aspectos da vida. Entre eles, a continuidade dos estudos acadêmicos. Precisamos dar visibilidade às mulheres mães e situar os obstáculos que sofrem em todos os ambientes.

A foto é dessa matéria ótima a respeito da necessidade de suporte para quem tem filhos e estuda em universidade. Conhece outras iniciativas em prol das mulheres mães no ambiente acadêmico? Escreva nos comentários, pfv!

Maternidade compulsória #07: ‘uma mulher não é completa sem a maternidade’

Por Helô Righetto

Esse é o sétimo post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quem define o significado de ser mulher? Cabe a cada uma de nós entender como expressa – e se quiser expressar – o gênero mulher. Mas, já sabemos, nossa individualidade vale pouco no contexto de uma sociedade patriarcal. E até mesmo dentro desse contexto, parece que a lista a ser preenchida para recebermos o certificado ‘mulher’ nunca será preenchida.

A maternidade, por exemplo. Para a sociedade patriarcal uma coisa não existe sem a outra: ser mãe está profundamente conectado ao ser mulher. A mulher que segue outro caminho está desviando de sua história predestinada, e uma pessoa não binária ou um homem trans que vem a parir rompe completamente com o ‘ser mulher’ . Não nos encaixamos.

De novo, como venho tentando mostrar nessa série, as mulheres que são mães também sofrem com exigências. Não basta ser mãe de uma criança (Mas você não vai ter outro bebê? Essa criança vai ficar mimada), não basta ser mãe em tempo integral (Mas você faz o que o dia inteiro?), não basta maternar e ter um outro trabalho (Nossa, sua filha fica o dia inteiro na creche?), não basta ter duas meninas (Não vai tentar um menino?), não basta ter três filhos (Mas vocês tem filhos demais hein? E sua carreira?), não basta, não basta. Nunca está bom.

É frustrante, eu sei, a gente ouvir de outras mulheres que não somos completas porque nos falta a maternidade. Mas se a gente colocar um olhar feminista nessa fala, até dá pra entender (não digo que precisamos reprimir nossa frustração ou tristeza, ou que temos que ficar quietas se nos deparamos com esse tipo de discurso) da onde vem isso. A maternidade carrega muita construção social sim (e ninguém está aqui questionando o amor maternal ou o quanto é importante criar/educar o futuro desse mundo), e por vezes pode perpetuar algumas mensagens que, para quem está do lado de lá, não parecem enraizadas no patriarcado.

Nós, feministas, não estamos livres de perpetuar machismo. Ou racismo. Ou gordofobia. Ou transfobia. Mulheres que são mães, portanto, não estão livres de passarem pra frente essa visão arcaica de que toda mulher deveria ser mãe.  Ou, pelo menos, as mulheres brancas e privilegiadas financeiramente. Afinal, mulheres periféricas, pobres, negras ou mães solo, certamente escutam e lidam com uma avalanche de preconceitos.

Porque mãe completa não é toda e qualquer mãe. É a mãe que é hétero, casada, tem dinheiro, é branca, e não reclama do trabalho invisível e da carga emocional da maternidade.

Eu sou uma mulher completa. Eu sou uma mulher.

 

Maternidade compulsória #06: ‘ter filho não é pra qualquer um mesmo’

Por Helô Righetto

Esse é o sexto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Há uns tempos, quando falei em uma rede social sobre a escolha de não ser mãe, recebi uma resposta mais ou menos assim: ‘Fora que tem um monte de mãe que era melhor não ter sido mãe. Deveriam fazer uma prova, porque não é pra qualquer uma mesmo’. De novo, como já falei tantas vezes durante os posts dessa série, eu entendi a boa intenção por trás dessa frase. Mas, é claro, ela é problemática.

E ela ofende não só quem decide que não quer ser mãe, mas as que são e querem ser mães também (já falei no início da série que a maternidade é algo holístico né, que falar de não ser mãe é também envolver as mães e vice versa). Afinal, quem é que decide o que é ou o que não é uma ‘boa mãe’? Existe tanto machismo e tanto apagamento na maternidade, e as mães precisam o tempo todo lidar com a culpa e com o peso da maternidade perfeita, por que ainda tem quem ache que possa definir o que é e o que não é ‘boa maternidade’?

Taí, mais uma vez, a falta de senso do coletivo. A falta de empatia. E a falta de noção da realidade fora da sua bolha. Já ouvi inclusive pessoas privilegiadas questionando o direito a maternidade de pessoas pobres.

Para uma mulher que não quer ser mãe, essa afirmação mais uma vez a reduz a um corpo e mente pensante que para nada serve. E, de novo, o fato de eu não querer ser mãe não tem a ver com a minha falta de capacidade para ser responsável por outro ser humano. Eu (de novo, já falei isso antes) me considero parte fundamental da minha comunidade e não ter filhos não me tira a responsabilidade de construir um futuro sustentável para as próximas gerações. Ou seja, essa ‘barreira’ criada por supostas características essenciais para exercer a maternidade ficam ainda mais irrelevantes.

A experiência de uma mulher como mãe não define como deve ser a experiência das outras. Aliás, a experiência de uma mulher como mãe não é a base para definir toda e qualquer experiência na vida de todas as mulheres. Sim, eu sei que maternar é desafiador, é uma missão complexa e cheia de altos e baixos, mas não coloca ninguém acima de ninguém.

Maternidade compulsória #05: ‘você seria uma ótima mãe’

Por Helô Righetto

Esse é o quinto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quando uma mulher pega um bebê no colo ou brinca um pouquinho com ukma criança, ela escuta duas coisas: ‘tá treinando?’ e ‘ser mãe combina com você, olha como você seria uma ótima mãe’.

Obrigada, pessoa, já que você tem tanta certeza de que eu segurar um bebê no colo por 10 minutos faz de mim uma boa mãe, vou providenciar um filho é agora! Não sei porque as mães que eu conheço falam que a maternidade é romantizada e na verdade maternar dá bastante trabalho, já que você está aqui me falando que basta segurar a criança no colo ou brincar com ela um pouquinho pra ser uma boa mãe. Uau. Você devia ser coach!

Ironias a parte, essa fala mostra o quanto a mulher é tida como ‘ser sem poder’: parece que estamos aguardando alguém nos sinalizar uma aprovação para que a gente prossiga com as nossas vidas. Ainda pior, mostra como a sociedade acha que a única interação entre mulheres e crianças é através da maternidade. Não podemos ver uma mulher – e pode ser uma dolescente – e uma criança sem já entregarmos pra ela o título de mãe.

É surpreendente que uma mulher que não quer filhos goste de crianças, porque somos imediatamente rotuladas do oposto. ‘Você não quer filho, achei que não gostasse de crianças!’.

Por fim, eu – e tenho certeza de que muitas mulheres na mesma posição que eu – não tenho dúvida de que seria uma boa mãe. Não é por isso que fiz minha escolha. (Isso sem entrar no mérito do que caracteriza uma boa mãe né? Porque vamos combinar, pra ser bom pai a expectativa é bem mais baixa.) E ser ‘uma boa mãe’ não faz de mim um ser humano melhor. Não estamos em busca dessa aprovação, não colocamos uma petição no change.org aguardando 10 mil assinaturas de pessoas que atestam que temos as devidas características para sermos boas mães.

Somos boas cidadãs. Isso basta.

Quatro livros de maternidade

Por Renata Senlle

Nesse dia das mães, sugiro três livros que tratam de maternidade:

O recém-lançado “Gestar, Parir, Amar: não é só começar” da Tayná Leite é um relato auto-biográfico, com referências de fatos jornalísticos e acadêmicos sem perder a leveza. Um livro que, ao mesmo tempo, desconstrói a romantização da gestação e da maternagem, sem deixar de dar luz para o lado potente e doce de ter filhos. Prepare-se para uma leitura verdadeira que coloca em xeque as opressões tão naturalizadas do que é ser mãe. Ela ajuda a nos libertar para uma maternagem mais leve.

A conhecida ilustradora Thaiz Leão já virou referência em traduzir os perrengues da vida de mãe solo com as tirinhas da HQ ‘Chora Lombar’. Agora, ela lança o ‘Exército de uma Mãe Só’. Mais uma edição literalmente desenhada pra aprofundar as agruras das mulheres que criam seus filhos sozinhas, naquela versão real oficial que a gente nunca sabe se ri ou se chora!

Também temos o recém-lançado livro de Manuela D’ávila, chamado Revolução Laura. Ela traz relatos como páginas de diários, em que reflete a respeito de suas experiências como mãe e candidata à vice-presidência. Sem querer ela mostra que ser a maternidade muito invisível em certos espaços. A política é um deles. Manuela fala disso de perceber que a sociedade ainda se choca com uma mulher mãe nesses lugares e acaba por escancarar a necessidade de a gente pensar em política a partir do olhar de mães e crianças.

* Imagem, daqui!

Maternidade compulsória #04: ‘só uma mãe sabe o que é amor de verdade’

Por Helô Righetto

Esse é o quarto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

O que ou quem você ama? Você ama sua casa, seus pais? Sua irmã, seu irmão, suas amigas? Sua esposa, seu namorado, suas amantes? Você ama viajar, ama ler, amar ir ao parque? Você ama comer macarrão ou doce de leite? Você ama seu gato, sua cachorrinha? Ama arte? Nós amamos muitas pessoas, muitas situações, muitas coisas. Eu tenho certeza de que não podemos, nem queremos, hierarquizar esses amores. Aliás, pra que o faríamos? Amor não é limitado, e não é uma fórmula única.

Por que, então, achamos que uma mulher que não quer ser mãe, jamais vai saber o que é amor ‘de verdade’? Essa afirmação coloca o amor de uma mãe pela sua filha ou seu filho como medida para o amor de todas as outras pessoas. E, apesar de parecer que fala de amor, é na verdade uma afirmação cruel, que considera os amores da vida de uma mulher que não é mãe menos importantes. De novo, não há medida para o amor.

A ideia de que amor de verdade é apenas o amor entre mãe e filhos/filhas, é mais uma dessas ‘pegadinhas’ patriarcais. Não é muito tentadora a ideia de que no momento que uma criança entra em nossas vidas elas estão finalmente completas, finalmente cheias de amor? Não é triste pensar em uma vida onde não há amor ‘de verdade’? Essa romantização da maternidade – que fala de amor mas não fala de solidão, de desigualdades, de exclusão da mãe, de discriminação da mãe – não serve pra ninguém. Nem pra mim, que não quero ser mãe, nem pra mulher que quer porém enfrenta obstáculos, nem para a mulher que quer ou é mãe e está feliz assim. Quando falamos que há apenas um amor que é de verdade, mascaramos todas as dificuldades da maternidade e silenciamos todos os outros amores, todos os outros caminhos que podem ser explorados além da maternidade.

Acho que precisamos buscar amor sim. E quando digo amor, fica implícito o ‘de verdade’. E que esse amor tenha muitas possibilidades.

O que é Feminismo Matricêntrico?

Por Renata Senlle

Se você é mãe e sente que o Feminismo exclui ou ignora as pautas da maternidade e das mães, esse post é pra você! Eu já escrevi aqui sobre Maternidade Patriarcal e de ‘Feminismo Matricêntrico’. Mas expliquei pouco esse último. O termo foi cunhado por Andrea O’Reilly, a pesquisadora canadense que há décadas batalha por uma teoria, um ativismo e uma prática próprias para as mães dentro do feminismo. É a minha nova musa.

O Feminismo Matricêntrico entende que maternar é central na vida das mulheres, mas não sugere e nem defende que a maternidade é tudo o que importa nessa vida ou que isso importa acima de tudo. Nós, mães, somos moldadas em definitivo pela maternidade, mas não somos apenas mães.

O’Reilly sugere um feminismo que coloque a maternidade no centro. Para a pesquisadora (e tô aqui gritando de concordância), o feminismo vem ignorando a maternidade nos últimos 40 anos e as mulheres mães continuam oprimidas duplamente: porque são mulheres e porque são mães. E isso sem contar as demais camadas que fazem intersecções de opressão: de classe, de raça, de orientação sexual, de idade, etc.

Veja bem, ela não quer substituir o feminismo pelo feminismo matricêntrico. Quer apenas enfatizar que a categoria das mães difere da categoria ‘mulher’ e que muitos dos problemas que as mães sofrem – sociais, econômicos, políticos, culturais, psicológicos e etc – são específicos dos papéis e da identidade que elas desempenham por serem mães. Entendo que seria uma outra vertente feminista.

Mas afinal do que ele trata e o que propõe? No artigo ‘The baby out with the bathwater:the disavowal and disappearance of motherhood in 20th and 21st century academic feminism’ (em livre tradução: ‘Jogar o bebê fora junto com a água do banho: a recusa e o desaparecimento da maternidade no feminismo acadêmico dos séculos XX e XXI’) Andrea O’Reilly articula sete itens de uma lista que considera parcial e provisória para compor o Feminismo Matricêntrico. Traduzi e adaptei livremente aqui pra espalhar essas palavras também em português:

O ‘Feminismo Matricêntrico’…

1) afirma que o tema das mães, da maternagem e da maternidade é merecedor de sérias e consistentes investigações acadêmicas (ela tem uma pesquisa mostrando como a temática da maternidade é ausente também no ambiente acadêmico dentro dos estudos feministas e de gênero no Canadá, mas arrisco dizer que não é exclusividade de lá);

2) Considera a maternidade como um trabalho que é importante e valioso para a sociedade, mas enfatiza que a tarefa essencial da maternidade não é, e não deveria ser, a única responsabilidade e dever das mães;

3) Contesta, desafia e sinaliza a instituição opressiva da maternidade patriarcal e busca imaginar e criar uma prática e uma identidade para a maternidade que empodere as mães;

4) Foca em corrigir a centralização da criança que define muito dos estudos acadêmicos e do ativismo sobre a maternidade e busca desenvolver pesquisa e ativismo a partir da experiência e da perspectiva das mães (AMO!);

5) Compromete-se com a mudança e a justiça social e considera a maternidade como uma empreitada de engajamento social com seu próprio lugar de poder, em que as mães podem e realmente criam uma mudança social através da criação de filhos e de seu ativismo;

6) Compreende que a maternidade e a maternagem são culturalmente determinadas e variáveis, e se compromete em explorar as diversas experiências existentes de forma interseccional, de acordo com raça, classe, cultura, etnia, orientação sexual, capacidade física, idade e localização geográfica;

7) Se esforça para estabelecer uma teoria materna e estudos sobre a maternidade como uma disciplina autônoma, independente e legítima de disciplinas acadêmicas.

Enfim, o Feminismo Matricêntrico é a vertente que faltava na minha vida de mãe feminista. Para quem se interessar mais, Andrea O’Reilly tem um livro a respeito, lançado em 2016: Matricentric Feminism – Theory Activism and Practice.

*Imagem tirada do Militância Materna, que recomendo bastante!

Maternidade compulsória #03: ‘e se você se arrepender?’

Por Helô Righetto

Esse é o terceiro post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Você já experimentou fazer essa pergunta para uma mãe? Óbvio que não (e não acho que deve ser feita em hipótese alguma). Então por que perguntar para alguém que não quer ter filhos sobre um possível futuro arrependimento?

É fato: todas nós vamos nos arrepender de alguma coisa nessa vida. Não dá pra gente acordar de manhã e fazer nossas escolhas rotineiras pensando que talvez, quem sabe, nos arrependeremos no futuro. A gente muda, o mudo muda (ainda bem), e arrependimentos acontecem. Viver pensando em evitar arrependimentos é desrespeitar quem é você HOJE.

Se uma mulher se arrepender de não ter tido filhos, o problema não é seu. Respondo por mim: sim, não há garantias que eu não me arrependa, e não sei o que vai acontecer se eu acordar um dia e achar que deveria ter tido filhos. Mas o que posso te dizer é que minha decisão hoje é embasada em muito auto-conhecimento. São anos me questionando, observando a maternidade ao meu redor. São anos pensando ‘será que há algo de errado comigo?’ por não querer ter uma criança. Se até hoje eu consegui seguir firme nessa decisão, posso ter a tranquilidade de que a eu do futuro vai lidar com uma possível (porém improvável) frustração conhecendo a eu do passado. E a possível arrependida eu do futuro não se esquecerá de seus questionamentos internos e da vontade enorme de viver sem filhos do passado.

E, como falo desde o começo dessa série, não ter filhos não significa virar as costas para a continuação da humanidade. Eu sei que sou parte ativa da sociedade e que cabe a mim participar na criação de filhas e filhos de pessoas do meu entorno. Eu quero que minha existência deixe marcas, deixe legado, e minha preocupação com o futuro é tão válida quanto a preocupação de quem tem filhos. Minha luta feminista é a longo prazo, e não será encerrada no momento que minha vida acabar: ela continuará através das crianças geradas e criadas pelas minhas pares.

A possível-porém-improvável-não-mãe-arrependida sabe que feminismo é uma via de duas mãos: poderei contar com as minhas pares para dividir com elas as delícias e dores da maternidade.

Maternidade patriarcal e feminismo matricêntrico

Por Renata Senlle

Eu acredito, por experiência própria, que a maternidade pode ser libertadora dos conceitos patriarcais. Não por que seja livre dele, mas justamente porque a partir da maternidade é possível entender como ela é peça principal dessa engrenagem machista, com um modo próprio e bem definido de opressão que detalha como devemos ser, agir e pensar. Nasce uma mãe e nasce toda uma série de demandas e exigências infinitas, impossíveis de serem alcançadas.

Essa é a Maternidade Patriarcal que, por ser absoluta e sutilmente violenta, pode nos empurrar à força rumo ao feminismo. Muitas mulheres que conheço entenderam a urgência do feminismo depois de terem filhos, porque toda a sorte de desigualdades se escancara até entre as mais privilegiadas.

Levei esse interesse para minha pesquisa de mestrado e conheci o trabalho de uma pesquisadora da maternidade, a Andrea O’Reilly, da Universidade de York, em Toronto (Canadá), por meio de um artigo traduzido pela doutora em comunicação e semiótica da PUC-SP, Maria Collier de Mendonça.

O’Reilly listou 10 pressupostos ideológicos da Maternidade Patriarcal:

1.Essencialização, ou seja: a mulher é fundamentalmente mãe.

2.Privatização: que faz do maternar exclusividade da vida privada, doméstica.

3.Individualização: como se maternidade fosse trabalho de uma única pessoa, centralmente a mãe.

4.Naturalização: infere que a maternidade é natural e que já nascemos sabendo como maternar e que não é preciso desenvolver inteligência ou habilidade e qualificação.

5.Normalização: limita o modelo às famílias nucleares heteronormativas na qual a mãe e esposa é a principal cuidadora. 6.Biologização: posiciona a mãe biológica como a autêntica e a real.

7 e 8.Especialização e Intensificação: defende que a prática de maternar seja guiada por especialistas, com demandas extenuantes em termos de energia, dinheiro e esforço maternos muito intensos.

9.Idealização: estabelece modelos inatingíveis que reforçam as expectativas e cobranças das mães sobre si mesmas e da sociedade sobre as mães.

10.Despolitização da Maternidade: isola a criação e educação dos filhos como atividades privadas, como se não tivesse relação e/ou implicações sociopolíticas.

Esses 10 tópicos seriam a estrutura que mantém a maternidade como uma instituição patriarcal. Quem se identifica?

Mas como foram construídos, podem ser desconstruídos. E, para serem desconstruídos, requerem um feminismo próprio, que O’Reilly descreve como Feminismo Matricêntrico para tratar das nossas questões de mãe com a relevância, a visibilidade, a seriedade e a urgência que elas têm.