Maternidade compulsória #02: ‘você só pensa em si mesma’

Por Helô Righetto

Esse é o segundo post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Resolvi colocar essa afirmação nesse segundo post não por acaso. Mulheres que decidem não ter filhos são geralmente chamadas de egoístas. Mas não é um tanto quanto contraditório, já que a mesma sociedade que nos acha egoísta se “preocupa” com quem vai cuidar da gente na velhice? Ter filhos para garantir uma velhice amparada não é egoísta?

Apesar de ser tentador continuar por esse caminho “egoísta não sou eu é você” prefiro encarar essa afirmação como mais uma prova de que não nos é permitido ter controle sobre o nosso próprio corpo (e isso as mães também enfrentam – como eu escrevi no primeiro post da série, aqui na Conexão Feminista a gente aborda maternidade de forma holística, não tem essa de “nós contra elas”).



Também não é permitido que uma mulher se coloque como prioridade na sua vida. Afinal, somos vistas como as cuidadoras, como as que abrem mão de suas carreiras, bem estar, vontades, em prol do cuidado pelos outros. Eternas cuidadoras, sem é claro ganhar nada por isso. A partir do momento que a gente se entende como prioridade, somos vistas como ameaças a manutenção de uma sociedade patriarcal, onde a mulher não é bem vista em espaços de poder.

Porém, é preciso tomar cuidado para não confundir auto-prioridade (será que esse termo existe?) com feminismo. Sim, temos que cuidar de nós, não somos pessoas terríveis por não abdicarmos de nossas vontades para cuidar dos outros, mas temos também que entender que esse posicionamento precisa ter algum desdobramento no coletivo. O feminismo é pelo coletivo.

Essa série de posts é um exemplo disso. Somos, afinal, um grupo de 30 mulheres que questiona a maternidade. Juntas, compartilhamos frustrações e decidimos falar sobre elas. Sobre sermos donas de nossos corpos. Falar sobre isso é certamente o contrário de egoísmo.

Maternidade compulsória #01: ‘mas quem vai cuidar de você na velhice?’

Por Helô Righetto

Quem acompanha nosso trabalho na Conexão Feminista sabe que maternidade é um tema constante nas nossas plataformas. Temos inclusive uma playlist no canal dedicada ao tema. Mas a gente não acha que maternidade é só sobre ter filhos. Pode parecer estranho, mas é sobre não tê-los também. Nossa sociedade reverencia a maternidade e julga que a mulher só cumpre seu papel quando vira mãe. Porém, a mesma sociedade vira as costas para mães, as excluindo de lugares públicos e instituições: política, trabalho, lazer. Tratamos as mães como meros ‘espaços’ a serem preenchidos por bebês: no momento que anunciam a gravidez, são ‘anuladas’ e tornam-se propriedade pública. São invisibilizadas, diminuídas e desrespeitadas.

Às mulheres que decidem por não ter filhos, são destinadas as perguntas e comentários bizarros. Os olhares tortos, o interesse desconcertante e desrespeitoso em nossas relações – com parceiros/parceiras, pais, mães, sobrinhos – como se algo estivesse errado. Como se nossas vidas não tivessem sentido. Afinal o que farão essas mulheres já que não se ocuparão de crianças?

Essa nova série de textos – esse é o primeiro de muitos! – é baseada na experiência de 30 mulheres que toparam nos contar as coisas absurdas que já escutaram simplesmente porque não desejam ter filhos. Fizemos uma compilação de frases – o que deu origem a nuvem de palavras que ilustra esse texto – e as que mais se repetiram foram escolhidas para serem rebatidas aqui. O título ‘maternidade compulsória’ foi escolhido pois representa a construção social e a romantização da maternidade. Por ser algo entendido como obrigatório na vida de mulher, quando não é realizada acaba gerando o estranhamento já falado anteriormente. Pode parecer estranho a gente usar a palavra maternidade em uma série de textos que justamente fala sobre não ter filhos. Mas como falei no primeiro parágrafo, maternidade é algo holístico – ser ou não mãe e saber que seu corpo é político com ou sem filhos, é essencial para que a gente se entenda como coletivo.

Feita a introdução da série, vamos ao comentário absurdo mais comum já ouvido pelas mulheres que não desejam ser mães: mas quem vai cuidar de você na velhice?

Essa frase foi escolhida como a primeira a ser dissecada porque foi a mais comum entre todas as participantes. A preocupação com o nosso futuro pode até ser bem intencionada, mas revela que a sociedade enxerga os filhos como propriedade dos pais, colocando nas costas deles uma pressão imensa mesmo antes de nascerem. É justo a gente exigir que filhos cuidem dos pais, principalmente nessa sociedade capitalista onde a maioria das pessoas trabalha pra sobreviver? Será que essa visão de ter filhos para garantir uma velhice supervisionada não está romantizada? Uma visão bastante privilegiada, pois você assume que, se seus filhos não puderem cuidar de você, pagarão alguém para fazê-lo. E dá pra garantir esse alívio financeiro? E se seus filhos tiverem seus próprios filhos pra cuidar? Essa é uma visão também capacitista: se o filho não puder fisicamente ou mentalmente cuidar de seus pais, quer dizer que colocá-lo no mundo não valeu a pena?

E quem garante a boa relação entre pais e filhos? De novo, essa visão romantizada da maternidade perfeita, da família perfeita.

Uma pessoa que não tem filhos não é necessariamente uma pessoa solitária. É possível ter uma velhice feliz e saudável, com ou sem filhos. Mais estranho do que perguntar para uma mulher quem vai cuidar dela na velhice é achar que toda pessoa precisa de cuidados o tempo todo (olha o etarismo aí, gente!!!). Pessoas velhas não são pessoas inválidas, e muitas tem os melhores anos de sua vida justamente porque os filhos são independentes.

Boas relações familiares não são necessariamente baseadas em cuidado intenso. E cuidado não precisa (nem deve) ser algo exclusivo dos familiares.