Intercâmbio Feminista: preparativos

Há aproximadamente um ano, a gente teve uma ideia: e se a gente pudesse conhecer e entrevistas outras mulheres ativistas feministas pelo mundo? Já que ‘conexão’ está no nosso sangue, seria incrível poder reforçar essa ideia de construir pontes não apenas com outras mulheres que trabalham pelo e para o feminismo, mas também entre elas e as pessoas que acompanham o nosso trabalho – o nosso público amado que nos assiste, nos escuta e interage com a gente nas redes sociais.

Resolvemos afinar a ideia e decidimos que seria bacana começar pelo Reino Unido. Afinal, uma metade da Conexão Feminista já mora lá. Então, na prática, seria assim: a Renata viajaria para Londres pra encontrar a Helô e por lá nós conversaríamos com ONGs e ativistas não apenas na capital, mas pelo resto do país. Essas conversas seriam transmitidas ao vivo no nosso canal, da maneira que já fazemos os hangouts, e depois se tornariam podcasts. O objetivo? Conhecer os diversos recortes do ativismo feminista no Reino Unido e mostrar para nossa audiência no Brasil que há sim misoginia, patriarcado e desigualdade no ‘primeiro mundo’. Mas também queríamos aprender com essas mulheres, queríamos nos inspirar, dividir soluções e ideias para seguir na luta.

Resolvemos então montar uma campanha de financiamento coletivo para fazer o Intercâmbio Feminista sair do papel. Gravamos vídeo, explicamos tim tim por tim tim o que seria feito com o dinheiro arrecadado, bolamos recompensas e colocamos a campanha no ar no final de novembro de 2017.

E qual foi a nossa surpresa quando a campanha arrecadou 20% da meta mínima em 10% do tempo? Tivemos um início de campanha forte, com muitas doações e apoio de amigas e de mulheres e homens que conhecemos por causa da Conexão. A arrecadação seguiu bem, e conseguimos chegar na meta mínima de 9 mil reais antes do fim do prazo. O Intercâmbio iria acontecer!

Na reta final do financiamento conseguimos bater a segunda meta, de 12 mil reais. Foram 176 apoiadores no total! 176 pessoas que acreditaram na gente. Até hoje a gente se belisca para acreditar. Foi por causa da segunda meta, aliás, que conseguimos fazer esse site!

Financiamento encerrado, era então hora de começar a planejar a execução do projeto e correr com as entregas de recompensas. As duas coisas correram em paralelo: a Renata gerenciou todas as entregas de recompensa no Brasil e começou a ver as passagens para Londres para fecharmos as datas, e a Helô gerenciou as recompensas para o resto do mundo (tivemos apoiadores até no Japão!) e entrou em contato com ONGs e ativistas.

Nesse meio tempo, entre o fim da campanha e o começo do projeto, a gente já conseguiu se dar conta de algumas coisas: por causa do valor da Libra Esterlina seria impossível viajar pelo país e teríamos que nos concentrar em Londres; as ONGs não podiam fechar compromisso com muita antecedência, e algumas ativistas nem escritório tinham. Ou seja, algumas entrevistas teriam que ser gravadas em vez de transmitidas ao vivo no canal. Isso já foi um grande aprendizado: nos demos conta de que não podemos esperar que outras pessoas, ainda que feministas e ativistas como nós, trabalhem a nossa maneira. Éramos nós que precisaríamos nos adaptar a elas.  E assim foi…

Continua no próximo post!

Bem vindas ao novo site!

Hoje, 25 de julho de 2018, esse site foi pro ar! Nós já tínhamos um site com as informações básicas sobre o trabalho da Conexão Feminista, mas resolvemos fazer um upgrade. Agora temos uma plataforma mais interativa, onde podemos inclusive publicar nossos textos e divulgar nossas participações em outras plataformas. Todos os hangouts (em vídeo ou podcast) vocês também poderão assistir aqui! Ainda precisamos povoar o site e é claro, fazer mudanças necessárias que devem aparecer com o tempo. Esse site renovado aconteceu graças ao apoio das 176 pessoas que apoiaram nosso financiamento coletivo para o projeto Intercâmbio Feminista. Como atingimos a meta de R$12,000.00, nos comprometemos a usar parte desse dinheiro para melhorar essa plataforma. E estamos muito felizes de mais esse pedaço do financiamento coletivo ter sido completado. Sejam bem vindas e bem vindos!

Machismo, literalmente

A linguagem é uma das ferramentas mais poderosas de qualquer país ou cultura. A maneira como falamos e escrevemos é carregada de mensagens que refletem nossos valores (por mais enrustidos que sejam). Acho que vocês já sabem onde quero chegar: mostrar que a linguagem – mais precisamente a língua portuguesa, já que é meu idioma natal e o que uso no meu dia a dia – é carregada de machismo e misoginia. O gênero masculino é o dominante no plural, essa é uma das primeiras coisas que aprendemos quando somos alfabetizados. Se existem 10 pessoas em uma sala e apenas uma dessas é pessoas é homem, é o suficiente para que o grupo seja tratado como “todos” em vez de “todas”, por exemplo. Recentemente, e principalmente nas redes sociais, a vogal “a” ou “o” passou a ser substituída pelo “x”, com o objetivo de neutralizar abordagens binárias e sexistas. Por mais inofensivo que pareça (já visualizo olhares de reprovação e comentários do tipo “ah mas essas feministas agora implicam até com a gramática?”), a masculinização das palavras no plural nos mostra que ser homem é a norma, é o que rege, é o correto. Em tempo: usar a letra “x” no lugar de “a” ou “o” tem seus problemas, principalmente no que se refere a acessibilidade. Softwares que lêem para pessoas com defici6encia visual não conseguem fazer essa pronúncia, por exemplo. Mas além das regras gramaticais, muito mais difíceis de serem percebidas como símbolos de machismo, as expressões que usamos de forma rotineira escancaram valores patriarcais. Eu sei que não preciso explicar o significado de nenhuma das expressões a seguir: “botar o pau na mesa”, “ter culhões”, “seja homem” são tão presentes no nosso dia a dia que falamos sem nunca pararmos por alguns segundos para escutar todo o machismo enraizado. É muito falocentrismo para um idioma só. São expressões que conotam poder, dominação e violência, utilizadas tanto para (e por) homens como mulheres. Já no caso de “mulherzinha” ou “correr como uma garota” (Você pode substiuir o “correr” por qualquer outra ação, como “jogar”, “lutar”, “chorar”), ou qualquer expressão que de alguma forma tenha ligação com a mulher ou feminilidade, tem conotação negativa: fraqueza, fragilidade, submissão. Essa percepção é perturbadora, e continuar utilizando esses termos é perpetuar esse assombroso abismo tão benéfico para a sociedade patriarcal. Não é “só uma expressão”, já que nenhum machismo é isolado. Linguagem machista, piadas machistas, cantadas constrangedoras e tantas outras ações que sozinhas parecem inocentes, fazem parte de um mecanismo complexo, que sustenta cultura de estupro, violência de gênero e tradições anacrônicas. Tão ou mais corriqueiros e misóginos do que as expressões citadas acima são os os xingamentos (aviso de gatilho: terei que escrevê-los). Já repararam que as ofensas dirigidas para mulheres tem um significado completamente diferente das que são dirigidas para os homens? Puta, vagabunda, vadia e afins, palavras com forte conotação (negativa) sexual são consideradas algumas das mais fortes quando o alvo é uma mulher. Bicha, veado, e qualquer outra palavra que questione a heterossexualidade masculina são as expressões mais utilizadas para ofender um homem. Ou seja, para xingarmos um homem, questionamos sua preferência sexual (o que é altamente homofóbico), ridicularizamos e afeminamos sua masculinidade. Para xingarmos uma mulher, questionamos sua condição imposta de “bela, recatada e dor lar”. Mulher promíscua não é mulher que mereça respeito, não é mesmo? A mulher é xingada até mesmo quando não é participante da discussão: filho da puta. Corno. Exemplos corriqueiros, mas que claramente mostram a culpa que a mulher carrega mesmo quando nada tem a ver com a situação. Erradicar a linguagem machista, admito, é um passo difícil. É um daqueles momentos que temos um espelho colocado a nossa frente, apontando todos os nossos preconceitos e hipocrisias. Nos descobrirmos feministas não parecia assim tão complicado. É muito mais fácil seguir escolhendo quais ítens da listinha de tarefas feministas adaptam-se ao nosso estilo de vida. Mas não é o feminismo que deve se adaptar ao nosso dia a dia, a nossa cultura. A transformação é trabalhosa.