Maternidade e Vida Acadêmica – Parte I

Por Renata Senlle

Já disse e escrevi algumas vezes que a maternidade foi uma das portas pela qual entrei de vez no feminismo. Foi, pra mim a condição mais gritante em que as desigualdades entre homens e mulheres ficaram ainda mais evidentes em todos os âmbitos da vida. E o fato de o feminismo só ter se escancarado pra mim nessa etapa da vida, sinaliza meus tantos privilégios de mulher branca, classe média, cis gênero e heterossexual. Desse lugar no feminismo, encontrei bastante informação e discussão a respeito das relações entre maternidade e carreira, maternidade e relações afetivas, maternidade e espaço público, mas pouco de maternidade e vida acadêmica.

Adiciono aos meus privilégios o acesso a um mestrado em uma universidade pública. E nesse espaço estão rolando uma série de movimentos para tirar a maternidade de dentro das casas e da responsabilidade única e exclusiva das mães para que elas possam estudar. São debates e iniciativas que começam a escancarar as diversas dificuldades e sobrecargas que recaem sobre as mulheres mães que também querem, podem e devem se dedicar à vida acadêmica. Eu mesma, só consegui me dedicar a isso depois que me separei. Com guarda compartilhada real, consegui ter um tempo sem criança para estudar.

Algumas iniciativas vêm contribuindo pra isso, como Parent in Science, que apesar do nome em inglês, é um movimento organizado por um grupo de pesquisadoras brasileiras. O intuito é levantar a discussão sobre a maternidade (e paternidade!) para dentro do universo da ciência do Brasil. A discussão começou para dar conta da ausência de dados e de conhecimento sobre uma questão fundamental: o impacto dos filhos na carreira científica de mulheres e homens.

Além de realizar seminários em diversas universidades brasileiras, o grupo realiza um levantamento entre as cientistas com e sem filhos, para entender as consequências da chegada dos filhos na carreira científica de mulheres e homens, em diferentes etapas da vida acadêmica.

Para começar a sinalizar e conscientizar para os impactos da maternidade entre a produtividade das pesquisadoras, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) anunciou em março deste ano a inclusão de uma aba com os períodos de licença maternidade e paternidade no currículo Lattes, depois de um pedido assinado por cientistas mulheres. O Lattes é a principal plataforma para inclusão de publicações e desenvolvimento de pesquisa no país.

As relações entre maternidade e vida acadêmica também foram o tema de uma mesa realizada durante o 1º Congresso de Mulheres na Ciência da UFMG, em 2018. Pesquisadoras trocaram experiências e reflexões de como superar obstáculos, contribuindo para que homens e mulheres tenham, de fato, oportunidades iguais no universo da ciência.

E a Universidade Federal Fluminense (UFF) publicou um edital no início de 2019 que inclui um mecanismo inédito para equilibrar a concorrência de homens e mulheres na disputa por bolsas de iniciação científica. No concurso, as professoras que tiveram filhos nos últimos dois anos podem ter acréscimo de cinco pontos — caso não atinjam a pontuação máxima — como forma de compensar o tempo de licença-maternidade em que não produziram trabalhos acadêmicos, um dos critérios para a escolha dos bolsistas.

A reivindicação pelos direitos das mulheres aos estudos é pauta da primeira onda feminista, bem exemplificada pela escritora inglesa Mary Wallstonecraft no livro: Reivindicação dos Direitos das Mulheres de 1792 (temos dois hangouts sobre ela, aqui e aqui). O pleno acesso das mulheres à academia é a radicalização desse demanda. E a maternidade, construída socialmente como atribuição majoritariamente feminina, trazendo uma tripla jornada repleta de trabalho invisível que te dizem que você deve fazer por amor, ainda se transforma numa enorme barreira em diversos aspectos da vida. Entre eles, a continuidade dos estudos acadêmicos. Precisamos dar visibilidade às mulheres mães e situar os obstáculos que sofrem em todos os ambientes.

A foto é dessa matéria ótima a respeito da necessidade de suporte para quem tem filhos e estuda em universidade. Conhece outras iniciativas em prol das mulheres mães no ambiente acadêmico? Escreva nos comentários, pfv!

Maternidade compulsória #07: ‘uma mulher não é completa sem a maternidade’

Por Helô Righetto

Esse é o sétimo post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quem define o significado de ser mulher? Cabe a cada uma de nós entender como expressa – e se quiser expressar – o gênero mulher. Mas, já sabemos, nossa individualidade vale pouco no contexto de uma sociedade patriarcal. E até mesmo dentro desse contexto, parece que a lista a ser preenchida para recebermos o certificado ‘mulher’ nunca será preenchida.

A maternidade, por exemplo. Para a sociedade patriarcal uma coisa não existe sem a outra: ser mãe está profundamente conectado ao ser mulher. A mulher que segue outro caminho está desviando de sua história predestinada, e uma pessoa não binária ou um homem trans que vem a parir rompe completamente com o ‘ser mulher’ . Não nos encaixamos.

De novo, como venho tentando mostrar nessa série, as mulheres que são mães também sofrem com exigências. Não basta ser mãe de uma criança (Mas você não vai ter outro bebê? Essa criança vai ficar mimada), não basta ser mãe em tempo integral (Mas você faz o que o dia inteiro?), não basta maternar e ter um outro trabalho (Nossa, sua filha fica o dia inteiro na creche?), não basta ter duas meninas (Não vai tentar um menino?), não basta ter três filhos (Mas vocês tem filhos demais hein? E sua carreira?), não basta, não basta. Nunca está bom.

É frustrante, eu sei, a gente ouvir de outras mulheres que não somos completas porque nos falta a maternidade. Mas se a gente colocar um olhar feminista nessa fala, até dá pra entender (não digo que precisamos reprimir nossa frustração ou tristeza, ou que temos que ficar quietas se nos deparamos com esse tipo de discurso) da onde vem isso. A maternidade carrega muita construção social sim (e ninguém está aqui questionando o amor maternal ou o quanto é importante criar/educar o futuro desse mundo), e por vezes pode perpetuar algumas mensagens que, para quem está do lado de lá, não parecem enraizadas no patriarcado.

Nós, feministas, não estamos livres de perpetuar machismo. Ou racismo. Ou gordofobia. Ou transfobia. Mulheres que são mães, portanto, não estão livres de passarem pra frente essa visão arcaica de que toda mulher deveria ser mãe.  Ou, pelo menos, as mulheres brancas e privilegiadas financeiramente. Afinal, mulheres periféricas, pobres, negras ou mães solo, certamente escutam e lidam com uma avalanche de preconceitos.

Porque mãe completa não é toda e qualquer mãe. É a mãe que é hétero, casada, tem dinheiro, é branca, e não reclama do trabalho invisível e da carga emocional da maternidade.

Eu sou uma mulher completa. Eu sou uma mulher.

 

Recesso feminista

A Conexão Feminista existe há 3 anos e 7 meses. Mais ou menos o tempo de uma graduação.. E a gente faz esse paralelo sem receio, porque a quantidade de coisas que aprendemos nesse tempo encheria cadernos e mais cadernos (sim, somos adeptas aos cadernos, ainda!). E, como acontece uma graduação, chega a hora de seguir um caminho: seja continuar estudando, seja trabalhar, seja viajar, seja dar um tempo. Então a gente decidiu que fazer um pouquinho de cada uma dessas coisas, e por isso estamos tirando um breve sabático do canal.

A gente explicou melhor nessa transmissão ao vivo que fizemos semana passada. Basicamente, continuaremos checando as redes sociais (Twitter e Instagram, não mais o Facebook) e também colocaremos textos aqui no blog conforme nossa vontade. Mas o canal/podcast, que é a base da Conexão Feminista, vai ficar em pausa enquanto descansamos um pouco e ao mesmo tempo repensamos a maneira que produzimos e entregamos esse conteúdo pra vocês.

Nos vemos no segundo semestre!



Photo by Jian Xhin on Unsplash

Síndrome do Impostor – Como nós, mulheres, apontamos para o que nos desvaloriza?

Por Renata Senlle

Antes que esse pareça um texto escrito por quem venceu as barreiras da insegurança, da autocrítica excessiva, do julgamento alheio e da ruminação paralisante e conseguiu subverter anos de ensinamentos de como ser simpática, atenciosa e responsável, quero deixar bem claro que NÃO. Não é meu caso. Ainda estou na luta. Mas é um texto de quem já tem mais consciência de quando está agindo de acordo com a Síndrome do Impostor, esse fenômeno cujo nome foi cunhado pelas pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes em 1978, após observarem um padrão de sentimento negativo entre alunos que se destacavam academicamente, mas sentiam não merecer esse sucesso.

Se você se explica demais, minimiza suas conquistas, não leva crédito pelo que faz, sente que está incomodando e que não deveria se colocar no mundo, talvez esse texto te ajude a perceber alguns comportamentos de quem pode se identificar com a Síndrome do Impostor. Ando prestando atenção nos grupos de trabalho com mulheres em que algumas atitudes desnecessárias se repetem e que acabam fazendo a gente e o nosso trabalho ou realizações, parecerem menores, ou menos importantes:

Pedir desculpas em excesso: Repare como as mulheres se desculpam com muita frequência. Em e-mails, como se estivéssemos atrapalhando; nos grupos de whatsapp ou em reuniões, quando vamos manifestar uma opinião; e por muitos outros motivos que nem fazem sentido. Pedimos desculpas o tempo todo. Fica parecendo que não deveríamos falar, que não deveríamos estar ali ou que estamos devendo. Reforçamos mais o que não fizemos do que apontamos nossas conquista. O efeito é que, ao invés de sermos vistas como justas e humildes, somos percebidas como fracas e inseguras.

Produzir provas contra si mesma: Até o judiciário nos desobriga a isso: ninguém precisa produzir provas contra si mesmo. Mas nós mulheres fazemos isso direto! É muito perceptível em ambientes profissionais. Você está lá fazendo uma apresentação, encontra um erro no slide e o que faz? Aponta o erro pra todo mundo, pede desculpas, se desestabiliza e faz desse momento o ponto alto da apresentação. Veja, meu ponto aqui não é o de sugerir que a gente ignore os erros ou que não seja humilde. Mas não tem necessidade de bota-los no centro do palco e tacar mais luz neles. Principalmente quando ninguém nem tinha reparado e a omissão não vai causar mal algum.

Nos responsabilizar mais do que devemos: Seguimos nesse modo multitarefa insuportável e insalubre, achando que devemos dar conta de tudo. A grande armadilha da mulher maravilha. Mas sério, isso mata ou causa muita ansiedade e tira nosso foco de fazer melhor o que de fato é de nossa responsabilidade. Somos tão criadas para ajudar, acolher docilmente a demanda alheia que assumimos mais do que devemos. Coloquei um mantra: isso é realmente de minha responsabilidade? Se não, se liberta e segue a vida. Maass prestenção ao próximo comportamento.

Justificar demais: Se percebo que não é minha responsabilidade e digo NÃO, na sequência vem uma dificuldade de ficar em silêncio e não justificar. Alguém pede um favor que você não pode atender e, ao invés de dizer que não pode, já vem trocentas justificativas à mente. Elas mais fazem parecer que estou evitando fazer do que de fato não posso mesmo fazer. É libertador dizer apenas não, sem mais subterfúgios. E raro de alguém ser confrontada por isso. As pessoas não rebatem quem diz NÃO com segurança, pois percebem que ponderar a decisão não está mais em questão.

Tem mais itens pra complementar a listinha? Manda nos comentários!

E deixo aqui mais indicações pra complementar sua própria investigação a respeito do tema:

Se você lê em inglês e curte um texto acadêmico, aqui está o link para comprar o texto original que investiga e cunha o termo Síndrome do Impostor, pelas pesquisadoras Pauline Clance e Suzanne Imes, em 1978.

Aqui, dois livros que esbarram na auto-ajuda, porém, são grandes reportagens que ajudam a gente a entender o funcionamento da Síndrome do Impostor e as razões pelas quais as mulheres são menos confiantes do que os homens. Vale segurar a onda da problematização e colocar um filtro nesses títulos americanos associam sucesso diretamente à profissão. E depois deixa ficar na sua peneira aquilo que pode nutrir a sua vida dentro das suas próprias necessidades e expectativas de sucesso. Tem coisa boa neles. Juro!

A Arte da Auto-Confiança, das autoras Kattie Kay e Claire Shipman

Os Pensamentos Secretos das Mulheres de Sucesso, da autora Valerie Young

O jornal New York Times também fez um ótimo guia para lidar com a Síndrome do Impostor.

E aqui, por último e MAIS importante, o hangout que fizemos a respeito desse tema! Fonte da imagem aqui.

Maternidade compulsória #06: ‘ter filho não é pra qualquer um mesmo’

Por Helô Righetto

Esse é o sexto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Há uns tempos, quando falei em uma rede social sobre a escolha de não ser mãe, recebi uma resposta mais ou menos assim: ‘Fora que tem um monte de mãe que era melhor não ter sido mãe. Deveriam fazer uma prova, porque não é pra qualquer uma mesmo’. De novo, como já falei tantas vezes durante os posts dessa série, eu entendi a boa intenção por trás dessa frase. Mas, é claro, ela é problemática.

E ela ofende não só quem decide que não quer ser mãe, mas as que são e querem ser mães também (já falei no início da série que a maternidade é algo holístico né, que falar de não ser mãe é também envolver as mães e vice versa). Afinal, quem é que decide o que é ou o que não é uma ‘boa mãe’? Existe tanto machismo e tanto apagamento na maternidade, e as mães precisam o tempo todo lidar com a culpa e com o peso da maternidade perfeita, por que ainda tem quem ache que possa definir o que é e o que não é ‘boa maternidade’?

Taí, mais uma vez, a falta de senso do coletivo. A falta de empatia. E a falta de noção da realidade fora da sua bolha. Já ouvi inclusive pessoas privilegiadas questionando o direito a maternidade de pessoas pobres.

Para uma mulher que não quer ser mãe, essa afirmação mais uma vez a reduz a um corpo e mente pensante que para nada serve. E, de novo, o fato de eu não querer ser mãe não tem a ver com a minha falta de capacidade para ser responsável por outro ser humano. Eu (de novo, já falei isso antes) me considero parte fundamental da minha comunidade e não ter filhos não me tira a responsabilidade de construir um futuro sustentável para as próximas gerações. Ou seja, essa ‘barreira’ criada por supostas características essenciais para exercer a maternidade ficam ainda mais irrelevantes.

A experiência de uma mulher como mãe não define como deve ser a experiência das outras. Aliás, a experiência de uma mulher como mãe não é a base para definir toda e qualquer experiência na vida de todas as mulheres. Sim, eu sei que maternar é desafiador, é uma missão complexa e cheia de altos e baixos, mas não coloca ninguém acima de ninguém.

Ativismo menstrual

Por Helô Righetto

ATENÇÃO: o feminismo praticado na Conexão Feminista é trans-inclusivo. Não achamos que apenas mulheres menstruam ou que todo mundo que menstrua é mulher. Respeitamos quem considera a menstruação como parte integral a sua feminilidade, mas achamos que cada pessoa tem o direito de definir o que faz dela uma mulher, um homem, ou uma pessoa não binária. Vamos celebrar as nossas diferenças e percebê-las como algo bom.
Volta e meia, quando falo de ativismo menstrual nas redes sociais, tem alguém que me fala que nunca havia escutado essa expressão antes. Isso é também algo relativamente novo pra mim. Apesar do feminismo ter entrado na minha vida com toda força em 2012, só há apenas uns dois ou três anos que eu aprendi que menstruação é uma questão feminista. A primeira vez que abordamos isso na Conexão Feminista, eu e Renata, foi nesse bate papo aqui:



Mas desde então, eu li e me informei muito mais sobre o assunto, a ponto de ativismo menstrual se tornar uma das minhas pautas preferidas no feminismo.

Então queria deixar aqui esse post como uma breve introdução ao ativismo menstrual, para servir como referência sempre que alguém me perguntar.

No meu entedimento de menstruação como pauta feminista, existem esses três pilares:

Pobreza menstrual (tradução livre da expressão em inglês ‘period poverty’): para entender o que é isso, basta você pensar um pouco como você lida com o gerenciamento da sua menstruação. Você tem absorventes/coletor a seu dispor? Tem um banheiro, tanto na sua casa quanto no trabalho, ou na escola/faculdade, no qual você se sente segura para passar o tempo que precisa para trocar seu absorvente/coletor? Esse banheiro tem lixeira e água corrente? Tem papel higiênico? Você tem calcinha? Se você usa absorvente reutilizável, você tem onde lavá-lo e secá-lo? Se você respondeu sim a essas perguntas, e se voc6e nunca tinha se tocado do privilégio que é poder responder sim a essas perguntas, tente pensar como é menstruar para quem responde não a essas perguntas. Pobreza menstrual é isso: não ter acesso a produtos para administrar a menstruação ou acesso a um espaço para fazer esses procedimentos. E é preciso pensar na consequência disso: meninas e mulheres que deixam de ir na escola ou trabalho porque estão menstruadas são super prejudicadas, adicionando alguns metros no abismo da desigualdade entre homens e mulheres. Há ativistas que inclusive pedem que absorventes sejam distribuídos gratuitamente em locais públicos, como escolas, escritórios, restaurantes. Afinal, se ninguém sai por aí carregando seu próprio rolo de papel higiênico, e lidar com a menstruação é um direito tão básico quanto lidar com os demais fluídos eliminados pelo nosso corpo?

Tabu: falar de menstruação é tabu. Fato. Mulheres cis e outras pessoas que menstruam foram ensinadas a ter vergonha e esconder a menstruação. Ai se mancha a calça! Ai se mancha o lençol! Não falamos de menstruação abertamente, como se fosse um problema que nós temos que resolver sozinhas entra mês e sai mês. A sociedade coloca todo o peso de lidar com a menstruação na mulher, no indivíduo. Aí, o negócio vira ‘problema de mulher’ – ué, quando queremos falar de aborto o governo e a igreja nos enchem o saco, mas quando é menstruação ninguém quer saber? Falta ligar uns pontos aí, não? E isso sem contar o isolamento que mulheres de culturas diferentes das nossas sofrem quando estão menstruadas, graças a lendas e tradições mais ultrapassadas que criminalização do aborto. Ah, cabe aqui também a velha história do ‘tá de TPM?’ (quem nunca ouviu essa?), que usa o ciclo menstrual como uma forma de gaslighting e silenciamento. Se menstruação não fosse tabu, esse tipo de ‘piada’ jamais existiria.

Sustentabilidade: estamos acompanhando o sucesso do coletor menstrual e o lançamento de absorventes reutilizáveis, feitos de materiais naturais, como fibra de bambu, por exemplo. Mas o grosso dos produtos menstruais ainda são aos absorventes (internos e externos) descartáveis, não recicláveis e super nocivos ao meio ambiente (e ao corpo da mulher). É claro que não cabe a nós exclusivamente a solução desse problema, mas é preciso tentar mudar de hábitos já. Principalmente se você é privilegiada e pode pagar por produtos biodegradáveis ou laváveis. Lembre-se: empresas multinacionais lucram gazilhões com a nossa menstruação, não apenas com os absorventes mas também com os famigerados ‘sabonetes íntimos’. Encontrar soluções mais sustentáveis é também uma maneira de resistência anti-capitalista.

Usando esses três pilares, o ativismo menstrual visa combater o uso da menstruação como ferramenta de opressão. Assim como falamos de ‘lentes feministas’, podemos falar também de ‘lentes menstruais’. Pensar em nossos privilégios e como nossa menstruação pode ser usada para melhor combater o patriarcado.

Para quem quer dar continuidade nos estudos de ativismo menstrual, aconselho assistir a entrevista que fizemos com a fundadora da organização Bloody Good Period:



Livro maravilhoso sobre o assunto (em inglês): Periods Gone Public, da Jenniffer Weis-Wolf Documentário (Netflix) vencedor do Oscar: Period. End of Sentence.

E você, já conhecia ativismo menstrual?

Maternidade compulsória #05: ‘você seria uma ótima mãe’

Por Helô Righetto

Esse é o quinto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

Quando uma mulher pega um bebê no colo ou brinca um pouquinho com ukma criança, ela escuta duas coisas: ‘tá treinando?’ e ‘ser mãe combina com você, olha como você seria uma ótima mãe’.

Obrigada, pessoa, já que você tem tanta certeza de que eu segurar um bebê no colo por 10 minutos faz de mim uma boa mãe, vou providenciar um filho é agora! Não sei porque as mães que eu conheço falam que a maternidade é romantizada e na verdade maternar dá bastante trabalho, já que você está aqui me falando que basta segurar a criança no colo ou brincar com ela um pouquinho pra ser uma boa mãe. Uau. Você devia ser coach!

Ironias a parte, essa fala mostra o quanto a mulher é tida como ‘ser sem poder’: parece que estamos aguardando alguém nos sinalizar uma aprovação para que a gente prossiga com as nossas vidas. Ainda pior, mostra como a sociedade acha que a única interação entre mulheres e crianças é através da maternidade. Não podemos ver uma mulher – e pode ser uma dolescente – e uma criança sem já entregarmos pra ela o título de mãe.

É surpreendente que uma mulher que não quer filhos goste de crianças, porque somos imediatamente rotuladas do oposto. ‘Você não quer filho, achei que não gostasse de crianças!’.

Por fim, eu – e tenho certeza de que muitas mulheres na mesma posição que eu – não tenho dúvida de que seria uma boa mãe. Não é por isso que fiz minha escolha. (Isso sem entrar no mérito do que caracteriza uma boa mãe né? Porque vamos combinar, pra ser bom pai a expectativa é bem mais baixa.) E ser ‘uma boa mãe’ não faz de mim um ser humano melhor. Não estamos em busca dessa aprovação, não colocamos uma petição no change.org aguardando 10 mil assinaturas de pessoas que atestam que temos as devidas características para sermos boas mães.

Somos boas cidadãs. Isso basta.

Quatro livros de maternidade

Por Renata Senlle

Nesse dia das mães, sugiro três livros que tratam de maternidade:

O recém-lançado “Gestar, Parir, Amar: não é só começar” da Tayná Leite é um relato auto-biográfico, com referências de fatos jornalísticos e acadêmicos sem perder a leveza. Um livro que, ao mesmo tempo, desconstrói a romantização da gestação e da maternagem, sem deixar de dar luz para o lado potente e doce de ter filhos. Prepare-se para uma leitura verdadeira que coloca em xeque as opressões tão naturalizadas do que é ser mãe. Ela ajuda a nos libertar para uma maternagem mais leve.

A conhecida ilustradora Thaiz Leão já virou referência em traduzir os perrengues da vida de mãe solo com as tirinhas da HQ ‘Chora Lombar’. Agora, ela lança o ‘Exército de uma Mãe Só’. Mais uma edição literalmente desenhada pra aprofundar as agruras das mulheres que criam seus filhos sozinhas, naquela versão real oficial que a gente nunca sabe se ri ou se chora!

Também temos o recém-lançado livro de Manuela D’ávila, chamado Revolução Laura. Ela traz relatos como páginas de diários, em que reflete a respeito de suas experiências como mãe e candidata à vice-presidência. Sem querer ela mostra que ser a maternidade muito invisível em certos espaços. A política é um deles. Manuela fala disso de perceber que a sociedade ainda se choca com uma mulher mãe nesses lugares e acaba por escancarar a necessidade de a gente pensar em política a partir do olhar de mães e crianças.

* Imagem, daqui!

A humanidade das feministas

Por Helô Righetto

Mary Wollstonecraft, autora de ‘Reinvindicação dos Direitos da Mulher’ – livro/manifesto publicado em 1792 considerado precursor do feminismo moderno – além de filósofa e defensora dos direitos, tentou suicídio por duas vezes, ambas por causa de um relacionamento abusivo com o pai de sua primeira filha, Fanny. Geralmente, quando falo com alguém sobre Mary Wollstonecraft e comento sobre esses dois atentados, a reação da minha interlocutora é de surpresa carregada de decepção. A mãe do feminismo tentou se suicidar por causa de um homem?

Eu entendo o ‘susto’ e a ‘decepção’. Nós esperamos que mulheres, principalmente as pioneiras, revolucionárias que deixaram sua marca na história, sejam um exemplo de vida bem resolvida, de perfeição, de modelo para as mulheres a seguir. Elas servem meio que como uma prova – estejam vivam ou mortas – de que mulheres não desistem nunca, superam toda e qualquer adversidade com destreza e sem qualquer deslize emocional.

Esses dias recebi uma mensagem privada de uma seguidora no Instagram. Era uma imagem, de uma mulher adulta de mãos dadas com uma menina, ambas de costas, caminhando. A menina pergunta: ‘mamãe, o que é desistir?’, e a mulher responde: ‘não sei filha, somos mulheres, não desistimos nunca’. Expliquei para a pessoa que me mandou a mensagem que, apesar da boa intenção, ela perpetua essa mesma ideia, esse mesmo modelo de perfeição feminina que mencionei acima.

Mulheres que exercitam feminismo, sejam militantes, líderes de comunidade, comunicadoras (como nós) ou políticas acabam sentindo isso na pele. E é preciso ressaltar que, com ou sem luta, somos todas humanas. Somos carregadas de conflitos, de emoções, de experiências de vida que correm em paralelo com as nossas lutas feministas. Estar ciente da importância do feminismo e tentar viver a vida através das lentes feministas não nos livra de machismo. Não nos livra da possibilidade de sermos vítimas de abuso ou assédio ou qualquer tipo de preconceito baseado em gênero. Feminismo, afinal, não é um remédio que cura problemas individuais, e sim a busca pelo bem coletivo, pelo fim da opressão.

O que uma mulher feminista faz ou deixa de fazer em sua vida pessoal não desmerece sua luta pública, política e coletiva. O exemplo tem que ser dado pela sociedade, a qual precisa se reestruturar e acolher ideias progressistas. Colocar feministas ativistas em um pedestal de perfeição feminino é colocar nos ombros de mulheres a responsabilidade de uma luta que é de todos nós.

Se você quer saber mais sobre Mary Wollstonecraft, assista o vídeo abaixo:



Mary Wollstonecraft Imagem via http://www.giuliavetri.com/Mary-Wollstonecraft

Maternidade compulsória #04: ‘só uma mãe sabe o que é amor de verdade’

Por Helô Righetto

Esse é o quarto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

O que ou quem você ama? Você ama sua casa, seus pais? Sua irmã, seu irmão, suas amigas? Sua esposa, seu namorado, suas amantes? Você ama viajar, ama ler, amar ir ao parque? Você ama comer macarrão ou doce de leite? Você ama seu gato, sua cachorrinha? Ama arte? Nós amamos muitas pessoas, muitas situações, muitas coisas. Eu tenho certeza de que não podemos, nem queremos, hierarquizar esses amores. Aliás, pra que o faríamos? Amor não é limitado, e não é uma fórmula única.

Por que, então, achamos que uma mulher que não quer ser mãe, jamais vai saber o que é amor ‘de verdade’? Essa afirmação coloca o amor de uma mãe pela sua filha ou seu filho como medida para o amor de todas as outras pessoas. E, apesar de parecer que fala de amor, é na verdade uma afirmação cruel, que considera os amores da vida de uma mulher que não é mãe menos importantes. De novo, não há medida para o amor.

A ideia de que amor de verdade é apenas o amor entre mãe e filhos/filhas, é mais uma dessas ‘pegadinhas’ patriarcais. Não é muito tentadora a ideia de que no momento que uma criança entra em nossas vidas elas estão finalmente completas, finalmente cheias de amor? Não é triste pensar em uma vida onde não há amor ‘de verdade’? Essa romantização da maternidade – que fala de amor mas não fala de solidão, de desigualdades, de exclusão da mãe, de discriminação da mãe – não serve pra ninguém. Nem pra mim, que não quero ser mãe, nem pra mulher que quer porém enfrenta obstáculos, nem para a mulher que quer ou é mãe e está feliz assim. Quando falamos que há apenas um amor que é de verdade, mascaramos todas as dificuldades da maternidade e silenciamos todos os outros amores, todos os outros caminhos que podem ser explorados além da maternidade.

Acho que precisamos buscar amor sim. E quando digo amor, fica implícito o ‘de verdade’. E que esse amor tenha muitas possibilidades.