Maternidade compulsória #04: ‘só uma mãe sabe o que é amor de verdade’

Por Helô Righetto

Esse é o quarto post da série sobre maternidade compulsória. Para entender melhor a série, clique aqui. Para ler todos os posts, clique aqui.

O que ou quem você ama? Você ama sua casa, seus pais? Sua irmã, seu irmão, suas amigas? Sua esposa, seu namorado, suas amantes? Você ama viajar, ama ler, amar ir ao parque? Você ama comer macarrão ou doce de leite? Você ama seu gato, sua cachorrinha? Ama arte? Nós amamos muitas pessoas, muitas situações, muitas coisas. Eu tenho certeza de que não podemos, nem queremos, hierarquizar esses amores. Aliás, pra que o faríamos? Amor não é limitado, e não é uma fórmula única.

Por que, então, achamos que uma mulher que não quer ser mãe, jamais vai saber o que é amor ‘de verdade’? Essa afirmação coloca o amor de uma mãe pela sua filha ou seu filho como medida para o amor de todas as outras pessoas. E, apesar de parecer que fala de amor, é na verdade uma afirmação cruel, que considera os amores da vida de uma mulher que não é mãe menos importantes. De novo, não há medida para o amor.

A ideia de que amor de verdade é apenas o amor entre mãe e filhos/filhas, é mais uma dessas ‘pegadinhas’ patriarcais. Não é muito tentadora a ideia de que no momento que uma criança entra em nossas vidas elas estão finalmente completas, finalmente cheias de amor? Não é triste pensar em uma vida onde não há amor ‘de verdade’? Essa romantização da maternidade – que fala de amor mas não fala de solidão, de desigualdades, de exclusão da mãe, de discriminação da mãe – não serve pra ninguém. Nem pra mim, que não quero ser mãe, nem pra mulher que quer porém enfrenta obstáculos, nem para a mulher que quer ou é mãe e está feliz assim. Quando falamos que há apenas um amor que é de verdade, mascaramos todas as dificuldades da maternidade e silenciamos todos os outros amores, todos os outros caminhos que podem ser explorados além da maternidade.

Acho que precisamos buscar amor sim. E quando digo amor, fica implícito o ‘de verdade’. E que esse amor tenha muitas possibilidades.

3 comentários sobre “Maternidade compulsória #04: ‘só uma mãe sabe o que é amor de verdade’”

  1. Hierarquizar amor é algo completamente sem sentido, além de ser extremamente opressor pra mãe também. Esse amor incondicional, à primeira vista é imaginário, inexiste na realidade, e como todo amor é uma construção cotidiana. Essa fórmula enclausura a mulher com e sem filhos em lugares crueis, pois ela será sempre apontada como falha se desviar às expectativas atendidas. Excelente reflexão, Helô!

  2. As pessoas descrevem o amor materno como incondicional, e eu o descrevo como o mais contraditório da face da Terra. Cazuza cantou “ só as mães são felizes”, e eu diria que as mães só são felizes quando não pensam na liberdade que perderam de nunca mais poder viver por si só. Ser responsável pela própria felicidade e satisfação já é uma empreitada complexa demais, e quando você tem um filho, nunca consegue estar ok se ele também não estiver ok. Você luta uma eternidade para se apoderar da própria vida, e de repente, joga uma parte importante da sua satisfação pessoal na mão do outro, que funciona como uma extensão sua, mas sobre a qual você não tem nenhum controle. Posso respeitar todas as mulheres, mas, pessoalmente, posso ter minha opinião, não posso? Eu não posso dar crédito a mulheres que acreditam em príncipe encantado, nem em quem romantiza a maternidade. A elas, com respeito, no máximo, meu sorriso amarelo.

  3. Olá Helô, esse texto é muito verdade e preciso de ser “dito”.
    Sou mãe de 2 crianças, quando elas nasceram obviamente não existiu o botão do “esse é o meu filho e a partir de agora eu amo essa criança mais do que tudo na vida”.
    Deixa dizer, eu nunca tive vontade de ser mãe, mas a maternidade aconteceu e os bebés foram bem-vindos. Sempre disse que se um dia tivesse filhos queria ter 2, e não 1, pois sou filha única e sempre quis muito ter um(a) irmã(o).
    Quando fui mãe, entendi que a maternidade exige muito espírito de sacrifício e que só se aprende a ser mãe quando se é mãe. A maternidade é um exercício de doação intenso e constante, e com isso o amor que a mãe sente pelo filho também aumenta, existe um grande investimento de amor. Amor esse que permita ser possível fazer o trabalho duro que é ser mãe.
    Não concordo com a expressão, mas talvez a digam por tudo o que a maternidade involve, que é absolutamente brutal em todos os sentidos, quando uma mãe faz de verdade o seu papel de mãe, claro.
    Mas assim também podemos dizer que, por exemplo, um(a) filho(a) que cuida dos seus pais doentes, faz tudo por eles, etc, também sente esse amor, pois doa tudo de si a eles, existe uma entrega pessoal ao mesmo nível de uma mãe, então o amor sentido deve estar ao mesmo nível.
    Ok, pode parecer que estou a misturar coisas, mas caraças ser mãe é dureza. Sei que muitos outros papéis sociais que um indivíduo pode adquirir ao longo da vida, também podem ser difíceis, mas a maternidade é definitivamente um deles. E considero isso uma grande desvantagem da maternidade. Que saudades do meu Eu sem filhos.
    De qualquer forma, essa expressão é injusta até porque as pessoas são diferentes e sentem o amor de maneiras diferentes.

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